sexta-feira, 27 de maio de 2011

Mr. Succeed


Tão logo subiu um degrau
Trata, pois, a todos tão mal 
Não se sabe o que lhe fizeram 
Ou o que lhe disseram.

Talvez seja assim 
Sua tola ascensão enfim 
Lhes mostrou quem era 
E o que se espera de si. 

Seu dia-a-dia 
         Quem diria 
 [por fim 

Compreende Sartre 
Avalia Delaunay 
E contanto que escute Vivaldi 
Está tudo bem...

O mundo pode aguardar 
Até o baile começar
A cidade pode explodir
E ele pretende assistir 

Seu dia-a-dia 
        Quem diria 
 [por fim 

Lê Faulkner 
Aprecia Dalí 
E enquanto ouve Beethoven 
Não está nem aí 





quinta-feira, 26 de maio de 2011

Kafka


       As páginas amareladas de um volume surrado que reunia obras de diversos autores debatiam-se violentamente aos golpes do vento impetuoso daquela melancólica tarde de outono.
       Protegido pelas grades da pequena varanda com vista para o quintal arborizado, ele tentava terminar o conto que tanto o afligira nos últimos dias. Ingênuo, preenchia a mente com preocupações vazias, como se, caso as vivesse com intensidade, seus problemas pareceriam diminutos vistos através de olhos marejados de sensatez.
       Procurou se concentrar na leitura, pouco antes de sentir o coração inquieto ao perceber que as minúsculas letras pretas cuidadosamente dispostas sobre o plano nada queriam dizer para ele. Mas esse estranho devaneio não devia ter comprometido seu entendimento do meio, já que ele ouvira a empregada se aproximar e dizer:
       — Já são três e meia. O senhor não vai almoçar?
       Prolongou-se pelo tempo esperado para uma resposta. Sua boca amargava, ele não tinha a mínima vontade de abri-la, impostar a voz e pronunciar as palavras. Às vezes, desejava que sua ama pudesse ouvir seus pensamentos, o que, evidentemente, o pouparia de esforços.
       Porém, isso não era possível, e ele precisava dar um pouco de atenção à alma caridosa que tanto fizera por ele e por sua família.
      A mulher o aguardava com a paciência que só os sábios têm.
      — Não. — a negação fora clara o suficiente para ser interpretada como um “deixe-me em paz.”.
      A empregada assentiu e retirou-se da varanda, deixando o velho sozinho.     
      No caminho para a cozinha, ela encontrou o filho mais novo de seu patrão.
      — Como ele está reagindo? — ele levantou-se da cadeira subitamente, ávido por informações a respeito do estado de ânimo de seu pai.
      — Ele está há horas sem comer — ela suspirou triste. — Só nos resta esperar...
      — Como, esperar? —  ele quase berrou, incrédulo. — Vamos deixá-lo morrer de fome?
      — O que o senhor quer que eu faça? Que eu enfie comida goela abaixo nele? — ela se manteve firme.  — Pode deixar, eu conheço seu pai há anos. Quando ele tiver fome, ele fala.
      O rapaz levou as mãos aos cabelos, desnorteado com a situação.
      — Mesmo assim, eu continuo perturbado. A mamãe... Quer dizer, foi tudo tão de repente! O câncer já estava num estágio tão avançado... — as lágrimas alcançaram seus olhos verdes.
      — Eu ainda acho que ele se sente culpado por ela. — disse a empregada, enquanto enxaguava a louça. — Ele nunca deixava ela ir ao médico... Coitada da dona Dalva...
      — Ah, Marlene, não fale uma coisa dessas! — o jovem mergulhava em soluços.
      — Ora, já que tá reclamando tanto, por que não vai lá tentar conversar um pouquinho com ele?
      Ele secou as lágrimas com a manga do casaco.
      — Melhor não. Ele deve ficar sozinho. Vamos dar um tempo ao tempo.
      Enquanto os dois dialogavam o trivial na cozinha, o velho escutava tudo, calado. Não condenou nenhum deles pelo que disseram. Nenhum deles fazia ideia do que ele sentia.
      Nem nunca fariam.
      A angústia o devorava vagarosamente, e, devido à sua idade avançada, poderia acabar por destrui-lo.
      Não importava quem estivesse ao seu lado, ele permaneceria sempre sozinho.
      Só naquele instante descobrira o verdadeiro significado da bendita palavra.
      Era desesperador ver-se reduzido ao mais ínfimo grau de insignificância e não ter forças para lutar contra a própria natureza.
      Ele já não era mais nada.
      Exausto, optou por fechar o livro que andara lendo, abraçou-o ternamente e entregou-se ao sussurro do sino-dos-ventos pendurado no teto da varanda.
      E adormeceu profundamente. 



domingo, 15 de maio de 2011

Schadenfreude


Night in St. Cloud, by Edvard Munch

    Essa é a noite.  

           Sim, era.
           A Lua cheia, imaculada pérola resplandecente entre o veludo negro banhado a estrelas que era o céu de Berlim em junho de 1934, tentava, sem obter êxito, iluminar os rostos tanto daqueles que sofriam quanto dos beneficiados por tais desgraças.
          E eu me incluía no segundo grupo.
          As janelas e portas dos prédios residenciais e comerciais, dentre os quais estava localizado o meu pequeno apartamento no quarto andar, já haviam fechado há horas. As luzes por detrás dos altos muros de concreto, apagadas. As únicas fontes de claridade na rua eram os postes, instalados em cada esquina.
         Acendi um cigarro e dei uma tragada, soltando a fumaça em seguida. Meu quarto se encolhia em meio aos quadros de Edvard Munch, recuava até o final do corredor e se refugiava na garganta profunda da escuridão. Tudo porque estremecia ao ouvir o discurso de um companheiro meu do Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores, gravado no rádio. As frases pronunciadas por ele eram estacas impetuosas pressionadas contra o peito dos céticos.
         Ele não precisava tocar sua pureza e inteligência na coragem covarde de uma pistola, um fuzil, um revólver ou o que quer que fosse.
         Suas palavras eram a arma mais devastadora que já existira.
         E ele sabia como usá-las.
         Ele era incrível. Traduzia com maestria o meu pensamento e o de outros milhares de cidadãos dignos em falas bem estruturadas.
         Deixei que o cigarro repousasse sobre o carpete escuro manchado de champanhe, e apaguei-o, comprimindo-o com a sola do meu sapato.
         Enquanto o fazia, dei por conta de um pequeno grupo constituído por duas mulheres, um homem e uma criança, que corriam apressados pela calçada. Seus gemidos apavorados puseram toda a serenidade da rua a perder. Carregavam sacolas pequenas, mas abarrotadas de roupas e sapatos. Provavelmente iam até estação de trem. A criança, uma menina de cabelos castanhos que não aparentava ter mais de dez anos, levava um ursinho de pelúcia a tiracolo. E, junto desse ursinho, avistei o motivo da fuga.
         Uma faixa com a Estrela de Davi bordada em amarelo presa a seu braço direito.
         Malditos judeus.
         Aproveitavam a madrugada para negar o inegável e alterar o curso de suas existências deploráveis.
         Abri a janela de meu quarto e cuspi no parapeito, desejando tê-los atingido. Imediatamente pensei melhor, e concluí que minha saliva era valiosa demais para ser desperdiçada na pele de um judeu.
         ­— Não andem na calçada, seus miseráveis! Vocês não merecem isso! — gritei para eles, que permaneciam lá embaixo.
         Eles ergueram a cabeça para olhar para mim e me obedeceram, sufocados pelo terror. Seguiram seu rumo pelo meio da rua. Torci para que um carro surgisse ali  e os atropelasse. Tal visão desenhou um sorriso em meus lábios.
         Com isso, vesti minha melhor roupa. Fechei a janela. Penteei meus cabelos com extrema cautela: nenhum só fio fora do lugar. O espelho refletiu o fulgor da raça ariana em meus olhos.
        Sim, aquela era a noite.
        Não restavam dúvidas.
        Eu iria presenciar um acontecimento que ficaria marcado na História da Humanidade.
        Para sempre.
        Tudo durante aquela noite.
         Furei meu dedo com um alfinete preso à minha calça deliberadamente. O sangue escorreu, já consciente de sua utilidade naquele exato momento.
        Levei-o até o espelho e desenhei o símbolo que faria todos tremerem, em qualquer época e em qualquer lugar dali para frente.

               



sábado, 7 de maio de 2011

Carta de um Anjo sem Auréola


      


     Os primeiros raios de Sol do dia beijavam as ruas estreitas e já apinhadas da cidadezinha com ternura. É um daqueles lugares pitorescos cercados de personagens únicos e intrigantes, alegres e coloridos, embora já houvessem passado parte da vida em preto-e-branco.
      A vida dos habitantes costumava girar em torno da praça, que escondia, em meio a imponentes palmeiras e bancos sujos de fezes de pombo (que ninguém se preocupava em limpar, uma vez que não se sentiam na obrigação de impressionar quem viesse de fora) uma simpática igrejinha.
      Para variar, o padre era conhecido e estimado por todos ali. Havia, inclusive, testemunhado boa parte dos nascimentos ao longo de décadas de monotonia. Nunca demonstrou muito interesse em aprofundar seus conhecimentos a respeito da vida de cada morador, porém divertia-se com as histórias que ouvia à espreita no confessionário.  
      Ainda assim, não esperava receber uma carta naquela manhã, cuidadosamente dobrada entre as milhares e finíssimas páginas áureas do Livro Sagrado.
      A caligrafia puramente infantil não ocultava seu remetente. Talvez esse nem fosse mesmo seu objetivo inicial.
                 Prezado Senhor Padre,
    Primeiramente, me desculpe pela palavra prezado. Mas é que eu não sei qual é o pronome de tratamento certo que eu devo escrever para me dirigir ao senhor. Eu aprendi na escola que as pessoas dizem Vossa Santidade ao falar com o Papa, mas, como o senhor não é papa, acho que eu posso te chamar de senhor mesmo. O senhor não se importa, não é?
   Mamãe mandou que eu fosse me confessar com o senhor. Mas é que eu não sei muito bem o que  dizer. Apesar de eu já ter visto o senhor diversas vezes, nas missas aos domingos de manhã, eu me sinto muito nervoso toda vez que eu tenho que falar da minha vida. Eu gaguejo muito. Por isso achei melhor escrever.
   Eu sei que o senhor não deve lembrar o nome e o rosto de cada fiel que vai para a sua igreja. Bem, só para constar: eu me chamo João e tenho 10 anos. Minha família não é muito grande: mamãe, papai, meu irmão mais velho, minha irmã do meio, e eu, o caçula. Meus irmãos já têm 15 e 14 anos, cada um. Papai trabalha o dia todo, e mamãe é muito beata.
   Mas todo mundo aqui na vila diz o contrário. Eu não me sinto à vontade com isso, porque sei que mamãe não mente. A Filomena, nossa vizinha, contou que ela teve um caso com o pedreiro que estava fazendo uma obra no banheiro lá de casa. Isso antes do homem que veio consertar a máquina de lavar. Essa estava mesmo com defeito. Fazia uns barulhos estranhos lá na lavanderia. Pareciam até gritos de gente. E também havia  outra voz, bem diferente da primeira, que dizia umas coisas estranhas bem baixinho. Mas, como a porta estava fechada, eu não pude ver nada. Depois eu até cheguei a perguntar para a mamãe o que era, mas ela nem respondeu. Ficou toda vermelha. Vai ver que ela tinha vergonha por ter tratado tão mal a pobre da máquina.
   O pessoal também vem com conversa sobre o papai. Dizem que, além de dentista, ele também é mágico: faz o dinheiro todo desaparecer. Mais uma vez, a Filomena mete o nariz enorme dela onde não deve, e espalha para todo mundo que papai é viciado em Jogo do Bicho, e aposta alto nos mesmos animais: coelho, veado... Bobo, não é?
   Meu irmão, Pedro Paulo, de vez em quando arranja confusão com os garotos aqui da rua. Sempre que chega em casa, já vem xingando todo mundo e não quer saber de ser repreendido. Mas tanto faz, ele nem liga muito para a gente...
   Minha irmã, Marina, só vive no mundo dela. Quase não fala com ninguém, passa a maior parte do tempo desenhando. E ela faz desenhos muito bem feitos, viu? Já fez até uma caricatura minha. Ficou bem divertido! Mas só tem um defeito que eu achei horrível: ela fuma de mais. As  pontas dos dedos dela estão quase sempre amareladas. Mas ela é muito boazinha comigo. É uma amigona. Por isso, jurei que nunca iria dedurá-la para os nossos pais. Eles iriam esganá-la.
   Pois é, senhor Padre, acho que por hoje é só. Eu tinha escrito no início da carta que ia me confessar, mas eu sou uma criança, não tenho pecado nenhum! E eu acho que cabe a mim confessar os pecados dos outros, porque eles não têm coragem de fazer isso. Eu sei que eles fariam o mesmo se eu estivesse no lugar deles.
   Ah, estou escrevendo também porque eu me lembrei de que um dos fiéis, o Jeremias, que está sempre aí, é analfabeto. Pelo menos, fico mais feliz em saber que ele não vai contar nada para ninguém, para o caso dessa carta cair nas mãos dele. Ele é muito bisbilhoteiro. Isso é pecado também, não?
   Espero que o senhor possa perdoar e abençoar minha família, mas eu acho difícil. Às vezes, eu penso que nasci no lugar errado. Eu faço tudo certo, não falo palavrão, não maltrato ninguém... Por que as coisas são assim?
   E, por favor, não me fale que a minha vida é boa porque eu já estou por aqui com essa bondade!
                                                                    Apertos de mão,
                                                                                 João
     P.S.: Ah, perdoa a Filomena também. É que eu acho que ela não tem o que fazer.
      

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Perfeição


         Eu não sou o que você espera de mim, e creio que nunca serei. Sob sua frágil e trêmula sombra, obtive apoio, antes mesmo de alcançar a habilidade de refletir sobre os seus atos. Antes mesmo de eu perceber que era tão-só um simples espelho suspenso na parede do quarto, e que refletia apenas sua imagem distorcida.
         A matemática implacável do tempo seguiu com seu percurso, privando-me de coisas maravilhosas. O contentamento que floresceu diante de meus olhos ao descobrir quem eu era foi medíocre em relação à minha monstruosa decepção quando eu constatei quem eu não era.
         Graças ao fatal despertar da alma, desprendi-me de seus sufocantes tentáculos para atirar-me nos braços de meu eu. Entretanto, se não fosse pedir muito, eu gostaria ainda que você revesse alguns pontos, caso ainda seja capaz de me perdoar.
         Desculpe se o meu raciocínio não é tão rápido quanto você queria que fosse. É que às vezes eu não consigo pensar com clareza, e você só piora tudo no momento em que insiste em vociferar e rugir.
         Desculpe se eu não corro tão rápido a ponto de ser classificado para participar das Olimpíadas. As chuvas fortes de janeiro e, por conseguinte, a gripe, me enfraqueceram estupidamente, aliadas, é claro, ao seu rigoroso e equivocado treinamento. E meu precoce desinteresse por esportes.
         Desculpe se eu não me expresso tão bem quanto deveria.
         Desculpe se eu não tenho nenhuma habilidade especial da qual você possa se gabar na TV.
         Desculpe por eu ter sido inapto a aprender a tocar piano aos três anos e compor um Prelúdio aos oito.
         Desculpe por eu não ter puxado sua beleza ou a sua inteligência. É necessário ressaltar que eu sou um novo ser, e não uma versão reduzida de você, o que, provavelmente, foi seu mais profundo desejo ao decidir me conceber.
         Eu não sou seu sonho realizado, nunca fui, mas, sim, tinha  os meus próprios sonhos a realizar. Por mim e para mim. 
         E você se revelou extremamente competente ao destruí-los. 
         Desculpe se as nossas conversas constituem-se basicamente de monossílabos. Torna-se quase impossível falar de maneira clara e objetiva enquanto você me fuzila com o olhar do outro lado da mesa de jantar.
         Desculpe se eu tenho perdido o interesse em você ultimamente.
         Desculpe se eu demoro a responder às suas perguntas.
         E, por fim, desculpe-me se eu não correspondo ao padrão pré-estabelecido de perfeição.
         Eu sou só aquele que é comumente denominado...
         ... Filho.



terça-feira, 19 de abril de 2011

Armadilhas




      Existe uma lenda que data de tempos imemoriais, que busca explicar o desaparecimento de uma antiga civilização, da qual os humanos não fizeram nenhum registro escrito, embora houvessem convivido ao mesmo tempo e dentro de um só espaço. Seu nome exato, até hoje, não é conhecido, apesar de alguns acreditarem que Kibtz seja a denominação correta.
      Tratavam-se de criaturas verdes, de pele escamosa e de cabeça raspada. Viviam na mata virgem, onde cultuavam seus deuses em um templo muito bonito, cujo modelo arquitetônico surpreendia por seu aspecto futurista. Assemelhava-se a uma pirâmide constituída por uma série de resistentes colunas, que continham pequenas frestas, que armazenava mensagens de um habitante da aldeia para outro, assim como oferendas e orações de sua religião politeísta. O complexo alfabeto desenvolvido por eles se permitiu ser esquecido através dos séculos.
      Em frente ao templo, uma bela piscina fora construída. Os raios do Sol refletiam nas águas límpidas, tornando o cenário ainda mais belo e convidativo. Qualquer um que vagasse por ali, quase desfeito em suor, se sentiria tentado a mergulhar ali.
      Isto é, qualquer um que ignorasse ao feitiço ao qual a piscina havia sido submetida.
     Durante uma brilhante manhã, um grupo de bandeirantes explorava a região, cercando todos os pontos estratégicos. Estavam dispostos a aprisionar os nativos e confiscar tudo o que encontrassem no templo — joias, ouro, prata, pedras preciosas, pinturas e escritos sagrados.        
     O momento era bastante propício, visto que todos haviam se ausentado para caçar e só um pequeno ser protegia o templo: Menkata, o bebê do soberano dos Kibtz. Em sua candura, aquela curiosa espécie residente em um dos cantos mais remotos do planeta, pensara que, daquela forma, qualquer um que tentasse invadir o templo, se comoveria diante da fragilidade da criança e nada de ruim atormentaria o povo.     
     E não era só isso: uma armadilha inimaginável reforçava a defesa contra ataques de forasteiros.
    A piscina.
    Os ancestrais dos Kibtz transmitiam oralmente mitos sobre as águas da piscina. Todo ser vivente da face da Terra, não importando sua pequenez ou sua grandeza, que se banhasse naquelas águas, seria amaldiçoado para sempre.
    No mesmo dia, os homens brancos chegaram ao templo. Ficam impressionados diante de sua magnitude. Sorriem e comemoram a vitória não ganha. Até que se dão pela presença de um cesto de lençóis imaculados, onde o bebê repousa. De início, não lhe atribuem importância, e põem-se dividir em grupos: três entrariam no templo, enquanto os outros três se concentrariam na entrada, avisando caso o perigo chegasse. Desses três, dois reclamam do intenso calor, tirando a camisa e se perguntando se poderiam mergulhar na imensa piscina. O outro pede para que os dois calem a boca, enquanto percorre a floresta com os olhos, sentindo o cheiro de perigo no ar. Enxerga um vulto, ao longe, entre as árvores. No desespero de dar a notícia ao outros companheiros, ainda dentro do templo, ele tropeça na cesta do bebê e, sem intenção, acaba por deixá-lo cair e, por conseguinte, possibilitou que ele penetrasse nas águas traiçoeiras da piscina.  
    Repentinamente, tudo mudou. O dia deu lugar a um céu escuro e tenebroso, e o grupo começou a temer o extermínio de toda vida humana. Era como se o Sol nunca mais fosse nascer e azarados seriam os remanescentes naquele canto isolado do Universo. A piscina transformou-se em uma genuína pira olímpica, onde o bebê já não mais ardia em chamas: as queimaduras estendiam-se pela sua espécie, provocando dores lancinantes que jamais sarariam.
     Todos os Kibtz correram para o templo, na tentativa de compreender o acontecimento. Quando o alcançaram, recuaram, sentindo-se impotentes diante de um povo que imaginavam ser superior a eles. Ainda de acordo com sua mitologia, se alguém tivesse a infelicidade de tocar as águas da piscina, seus familiares ou seres de sua própria espécie deveriam realizar algum tipo de sacrifício.
     A extinção.
     Enfraquecidos emocionalmente, perante cruel tragédia, os Kibtz sucumbiram aos desejos dos homens brancos. Deixaram que levassem todas as suas riquezas e logo depois, foram aniquilados em uma dos mais sangrentos extermínios dos quais jamais se teve notícia.
     E assim, por erros aparentemente banais, todo o sonho de uma civilização se entregou a um atroz destino: o desaparecer e, pior, ser esquecido para sempre. 

terça-feira, 12 de abril de 2011

Ao cair da Noite


                A estrada fluía como um filme diante das amplas janelas de vidro fumê do carro de minha mãe. O sol já se punha ao longe, o céu mesclava-se entre tons de rosa e dourado pelo horizonte, enquanto o coração da noite concentrava-se no azul marinho, preparando-se para enegrecer. Parte da neve já derretera com a chuva da tarde e eu descansava, recostada nos bancos de couro, cantarolando um Noturno de Chopin.
                A rodovia que nos levava para São Petersburgo era serenamente apavorante. De uma margem a outra, não se viam outros veículos além do nosso. Parecia que o frio havia trancado todos os habitantes das redondezas em suas casas. Segundo um dos termômetros à beira da estrada, a temperatura era de -11ºC.
                Percebi que minha mãe mantinha as mãos ainda mais firmes no volante, como se desejasse aumentar a velocidade sem ser alvo de olhares desaprovadores. Não sei de quem. Eu mesma torcia para que ela voasse a duzentos quilômetros por hora, contanto que chegássemos o mais rápido possível à casa de meus tios.
                Minhas férias de inverno na Rússia mostravam-se bem proveitosas até então. Em poucas semanas, eu já visitara os principais monumentos da cidade, como o Palácio de Mármore, além de inúmeros museus.
                Naquele momento, voltávamos de uma pequena viagem de cinco dias para Moscou, onde havíamos nos hospedado num hotel. Uma verdadeira aventura para duas estrangeiras que mal sabem balbuciar palavras em russo.
                Anoitecia a uma rapidez espantosa. O céu , o tal lençol negro bordado de escassas estrelas semiapagadas, estava prestes a se levantar e a nos cobrir. Esse fenômeno de beleza estonteante deve ser o que muitos denominam de “o cair da noite”.
                Entretanto, a mim era indiferente presenciá-lo ou não. Eu já me enjoara dos biscoitos de aveia que tínhamos comido durante nosso tour por Moscou. Minha boca amargava, enquanto eu esperava ser saciada por uma xícara de chocolate quente em frente à lareira. Meus olhos se fecharam ao sabor da lembrança.
                Quando menos esperava, fui surpreendida pela visão de um idoso maltrapilho atravessando a estrada. Os faróis do carro iluminaram seu rosto de perfil, e ele cobria os olhos com as mãos em resposta à intensa claridade. Mas, ao contrário do que pensei inicialmente, minha mãe não diminuiu a velocidade, nem mesmo freou. Eu penetrei fundo em seus olhos através do retrovisor, minha mente tomada de pavor.
               — PARE! AGORA!
               Apertei forte seu braço direito, porém, já era tarde demais.
                O veículo se movimentou a um solavanco violento. De repente, nada mais parecia real e todos os elementos a minha volta não pertenciam mais àquele plano e, sim, a o de um pesadelo.
               Um cruel pesadelo.
               Que se concretizou quando ouvi os ossos do velho se quebrando. Seu grito rouco fora sufocado pelos frios e pesados pneus do carro. Sofrera graves ferimentos pelo corpo e, provavelmente, não duraria muito caso não fosse imediatamente encaminhado à emergência do hospital mais próximo.
              Assim que se libertou do corpo inerte, o carro voltou à sua velocidade inicial.
              Horrorizada, procurei por minha mãe. Precisava olhar para ela, alertá-la de que precisávamos salvar o homem que ela acabara de atropelar.
                — Mãe! PARA A DROGA DESSE CARRO AGORA! Não podemos deixar aquele idoso morrer! Eu vou chamar uma ambulância!
               Desci as mãos para o bolso da calça, em frenética busca pelo meu telefone celular.
               A reação dela me surpreendeu.
               — Quer que eu seja presa? — ela avançou ferozmente sobre mim, enquanto pisava fundo no acelerador; àquela altura já devia ter ultrapassado os duzentos e cinquenta quilômetros por hora.
             — Mãe, olhe para frente, senão iremos bater!
             Ela fez o que eu ordenara desesperadamente e, por sorte, foi capaz de desviar de um poste.
             Virei-me para trás, onde a vítima de seu repentino e impetuoso acesso de loucura jazia.
             Ele não estava mais lá.
             Seu corpo tinha desaparecido.
             Como isso pôde acontecer?
              Nada parecia mais em sintonia com relação ao Universo. Nada mais fazia sentido.
              Nada.
              E aquela mulher louca, quem era? Certamente não era minha mãe. Ela não mataria alguém à toa. E também não tentaria me matar.
             Certamente, o velocímetro explodiria a qualquer momento.
             Mas eu necessitava escapar...
             ... Apenas para salvar minha vida.
             Sem pensar em mais nada, com o coração acelerado e já encolhida pelo medo, decidi arriscar. Abri uma das janelas do carro. A mesma pela qual, minutos antes, eu observara o entardecer.
            Quantos minutos eram necessários para que alguém mudasse da água para o vinho?
             Apenas alguns.
             — O que você está fazendo? — seus olhos injetados de vermelho borbulhavam de ódio.
             Não respondi e nem me intimidei com sua expressão facial.
             Esperei encontrar algum indício de reconhecimento familiar nela.
             Nada.
             Respirei fundo.
             E pulei.
             Com o impacto que meus pés atingiram o chão, eu rolei pelo asfalto, ganhando algumas escoriações pelo caminho. Esses leves sangramentos arderam um pouco. Mas nada mais me deteria.
            Nada.
           Não sei por quanto tempo eu permaneci correndo. Não sei para onde aquele idoso gravemente ferido fora. Não sei se as minhas próprias feridas irão cicatrizar.
          Só sei que eu nunca mais vi aquela mulher de novo. E nem desejaria isso.
          Nunca mais.