domingo, 15 de maio de 2011

Schadenfreude


Night in St. Cloud, by Edvard Munch

    Essa é a noite.  

           Sim, era.
           A Lua cheia, imaculada pérola resplandecente entre o veludo negro banhado a estrelas que era o céu de Berlim em junho de 1934, tentava, sem obter êxito, iluminar os rostos tanto daqueles que sofriam quanto dos beneficiados por tais desgraças.
          E eu me incluía no segundo grupo.
          As janelas e portas dos prédios residenciais e comerciais, dentre os quais estava localizado o meu pequeno apartamento no quarto andar, já haviam fechado há horas. As luzes por detrás dos altos muros de concreto, apagadas. As únicas fontes de claridade na rua eram os postes, instalados em cada esquina.
         Acendi um cigarro e dei uma tragada, soltando a fumaça em seguida. Meu quarto se encolhia em meio aos quadros de Edvard Munch, recuava até o final do corredor e se refugiava na garganta profunda da escuridão. Tudo porque estremecia ao ouvir o discurso de um companheiro meu do Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores, gravado no rádio. As frases pronunciadas por ele eram estacas impetuosas pressionadas contra o peito dos céticos.
         Ele não precisava tocar sua pureza e inteligência na coragem covarde de uma pistola, um fuzil, um revólver ou o que quer que fosse.
         Suas palavras eram a arma mais devastadora que já existira.
         E ele sabia como usá-las.
         Ele era incrível. Traduzia com maestria o meu pensamento e o de outros milhares de cidadãos dignos em falas bem estruturadas.
         Deixei que o cigarro repousasse sobre o carpete escuro manchado de champanhe, e apaguei-o, comprimindo-o com a sola do meu sapato.
         Enquanto o fazia, dei por conta de um pequeno grupo constituído por duas mulheres, um homem e uma criança, que corriam apressados pela calçada. Seus gemidos apavorados puseram toda a serenidade da rua a perder. Carregavam sacolas pequenas, mas abarrotadas de roupas e sapatos. Provavelmente iam até estação de trem. A criança, uma menina de cabelos castanhos que não aparentava ter mais de dez anos, levava um ursinho de pelúcia a tiracolo. E, junto desse ursinho, avistei o motivo da fuga.
         Uma faixa com a Estrela de Davi bordada em amarelo presa a seu braço direito.
         Malditos judeus.
         Aproveitavam a madrugada para negar o inegável e alterar o curso de suas existências deploráveis.
         Abri a janela de meu quarto e cuspi no parapeito, desejando tê-los atingido. Imediatamente pensei melhor, e concluí que minha saliva era valiosa demais para ser desperdiçada na pele de um judeu.
         ­— Não andem na calçada, seus miseráveis! Vocês não merecem isso! — gritei para eles, que permaneciam lá embaixo.
         Eles ergueram a cabeça para olhar para mim e me obedeceram, sufocados pelo terror. Seguiram seu rumo pelo meio da rua. Torci para que um carro surgisse ali  e os atropelasse. Tal visão desenhou um sorriso em meus lábios.
         Com isso, vesti minha melhor roupa. Fechei a janela. Penteei meus cabelos com extrema cautela: nenhum só fio fora do lugar. O espelho refletiu o fulgor da raça ariana em meus olhos.
        Sim, aquela era a noite.
        Não restavam dúvidas.
        Eu iria presenciar um acontecimento que ficaria marcado na História da Humanidade.
        Para sempre.
        Tudo durante aquela noite.
         Furei meu dedo com um alfinete preso à minha calça deliberadamente. O sangue escorreu, já consciente de sua utilidade naquele exato momento.
        Levei-o até o espelho e desenhei o símbolo que faria todos tremerem, em qualquer época e em qualquer lugar dali para frente.

               



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