quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sombras






           Meus olhos se abriram em meio ao choque denso entre devaneios e realidade. Um gesto quase mecânico, movimento involuntário que comunicava o perigo iminente por volta das dez da manhã.
           O porão dos meus vizinhos, parcialmente destruído, desistira de se reerguer após o caos gerado pelas bombas lançadas contra o Centro da cidade na noite anterior.
            Levantei-me prontamente do chão e comecei a procurá-los. Subi as escadas em direção ao que antes havia sido a sala de estar do casal amigo dos meus pais, que gentilmente aceitaram que eu me refugiasse lá, junto deles. Como eu tinha mais três irmãos, minha mãe achou melhor que todos nós nos escondêssemos em lugares diferentes; uma vez que, dessa maneira, seria improvável que todos morressem, o que fatalmente ocorreria caso a família inteira resolvesse se abrigar no pequeno apartamento onde morávamos há quatro anos, pouco antes do início dos conflitos.
           Minhas esperanças morriam à medida que eu avançava nos degraus. Era óbvio que, se o porão se encontrava naquele estado deplorável, a situação do resto da casa seria ainda pior.
           E eu nem imaginava o quanto.
           Antes que eu pudesse avistar as ruínas da casa, um pequeno espelho caído num dos degraus da escada já me preparava para o que eu podia encontrar. Ao ver meu reflexo ali, recuei um ou dois degraus, reprimi um grito e levei uma das mãos à boca. Eu me vi completamente coberta de poeira e me perguntei como não havia percebido aquilo antes. No momento dos bombardeios, sempre me diziam: “Por tudo que é mais sagrado, jamais abra os olhos!”. E eu sempre obedecia. E eu não tinha certeza se aquilo era apenas para proteger a minha visão ou também o meu coração.
           Uma lágrima escorreu pelo meu rosto, um fio de pureza entre as escórias. Ela era simplesmente uma afronta ao restante do meu corpo. Não ousei secá-la. Era o meu troféu.
            Imediatamente, reuni todas minhas energias possíveis para sair do porão e começar a busca pelos meus familiares e amigos, que ainda deviam estar soterrados entre os escombros das construções.
            Mas não foi o que eu vi  que me destruiu por dentro.
            Foi o que eu senti em seguida.
            A casa dos meus vizinhos simplesmente não existia mais. Tudo o que lá havia: eletrodomésticos, móveis, roupas, alimentos, livros, CDs, todo o trabalho de uma vida, extinto.
            Os prédios ao redor eram só uma série de amontoados de concreto desordenados. Inclusive aquele onde antes eu habitava.  Os danos materiais não eram nada comparados a...
            Meu pensamento esvaiu-se pelos ares poluídos.
            Ninguém da minha família estava ali. Sequer conhecidos meus. Caminhei pelas ruínas, passei por cima de muitos cadáveres. Só, cadáveres, eu não tinha lágrimas suficientes para eles. Eles estariam ali, cedo ou tarde.
            O sopro dos anjos veio, congelante, tornando minha missão ainda mais tortuosa e pungente. Eu estremeci, enquanto aconchegava-me no meu casaco velho e puído.
            A disposição das nuvens me sufocava.
            Uma pomba, alheia a todos os acontecimentos em terra, sobrevoou os estragos. Acenei para ela até não ser mais capaz de distingui-la entre a brancura imaculada do Céu, o reino ao qual a ave pertencia. Ela se limitou a seguir o próprio caminho ao não compreender meus apelos.
            Depois de incontáveis minutos de procuras infrutíferas, debaixo de parte de uma parede, vi uma mãozinha de bebê, que levava uma pulseira banhada a ouro com um nome gravado.
            Clara.
            Minha irmãzinha.
            Eu urrei.
            Ninguém me ouviu. 





Nenhum comentário:

Postar um comentário