domingo, 26 de junho de 2011

Presentes


        Aconteceu numa dessas tardes ensolaradas e úmidas, cingidas pelo cheiro de grama, que se torna mais forte quando se está no campo, como era o caso. O dia não importa, uma vez que os dois pequenos curtiam seus últimos dias de férias e todos sabem que, durante as férias, todos os dias parecem iguais. Não havia segunda-feira que implantasse o mau-humor e nem domingo que não tivesse um piquenique após a missa na Igreja de Santo Antônio.
         Tomás e Marília contavam 10 e 11 anos e, até o momento, não haviam frequentado escola formal. Alfabetizados aos 5 anos pela mãe, professora primária, foram educados em casa até concluir o equivalente ao 5º ano do Ensino Fundamental. A partir daí, graças aos tios, que moravam na cidade grande, eles continuariam seus estudos num dos melhores colégios do país, com o auxílio de bolsas integrais. A mãe, com o coração apertado, arrumava as malinhas dos meninos, pois, dali a uma semana, os tios viriam buscá-los e, a partir daí, eles morariam juntos no centro da cidade. O que, certamente, poria fim ao lazer dos dois.
         Contudo, a tarde era bonita demais para ser desperdiçada pensando na escola. Especialmente num lugar belo e pacato como aquele, onde pássaros raros seguiam reto pelos bosques da primavera até atingir os riachos de verão. O Sol participava ativamente do festival da natureza. Talvez por se considerar a estrela maior do espetáculo, proibira todas as nuvens de ficarem próximas a ele, para que seu esplendor e sua graça incomparáveis não fossem ocultados.
         E foi justamente nesse cenário — que se torna perfeito caso se acrescente uma confortável casa em meio a um prado verdejante, um imenso quintal, um vovô sentado numa cadeira de balanço, situada na varanda dessa casa, e três ou quatro galinhas correndo no quintal — que Marília e Tomás receberam a caixa.
         A caixa, assim como notícias de parentes distantes, chegou através do correio. Ao anúncio do carteiro, as crianças prontamente atenderam. A princípio, a ansiedade e a excitação dos irmãos só permitiam que lhes ocorresse que a caixa provavelmente vinha de seus tios.  Já o carteiro fazia outra ideia: não havia remetente.
        Ignorando a imperplexidade das crianças, o carteiro prosseguiu:
        — A mãe ou o pai de vocês está em casa?
        — A minha mãe está fazendo o almoço — Marília respondeu — Por quê?
        — Eu preciso que ela assine este comprovante de recebimento da entrega. — o funcionário dos correios ergueu uma prancheta com alguns papéis e uma caneta.
        — Tá bom. Vou lá chamar ela. — a menina percorreu o caminho feito de pedrinhas que conduzia até a entrada da casa e seguiu para a cozinha. O irmão caçula não hesitou em acompanhá-la, carregando consigo a caixa.  
         Ao ouvir o som dos chinelos pequeninos dos filhos em contato com o piso de mármore da entrada, a mãe virou-se para ouvi-los, enquanto mexia o feijão na panela com uma colher de madeira.
         — O que houve, anjinhos? — ela segurou o rosto de Marília entre as mãos, emoldurando-o com os lindos cabelos cacheados da menina.
         — O moço dos correios quer falar com a senhora. Alguém mandou isso aqui para a gente — Tomás apontou para a caixa.
        — Quem?
        — Nós não sabemos, não veio nome de ninguém, só o nosso. — disse Marília. — Podemos abrir?
        A mãe franziu o cenho, desconfiada.
        — Podem — respondeu, insegura. — Eu vou ver isso já, já. — e saiu ao encontro do carteiro.
        Os meninos correram para a sala.
         Marília abriu uma das gavetas da cômoda da sala, onde a avó guardava seus materiais de costura, vasculhando tudo atrás de uma tesoura. Ao consegui-la, foi logo se encarregando de cortar o barbante preso ao pacote e Tomás completou a tarefa, ao rasgar o papel que cobria a caixa.
        Ao abri-la, os irmãos se viram em contato com um passado mágico.
         Fotografias amareladas e gastas pelo tempo, lápis de colorir, um pequenino caderno de desenhos, um pião, um estilingue, uma série de cartões postais presos com uma fita de seda vermelha e muitas, muitas histórias a serem contadas.
         — Olhe, é o vovô! — Marília apontou para uma das fotos, onde um garotinho com os cabelos escuros penteados para trás, de camisa branca e short com suspensório, andava de bicicleta. Ela só pôde reconhecê-lo graças a algumas anotações do verso do papel, que incluíam a data de quando o retrato fora feito, e o nome de seu avô. De outra forma não seria possível, as crianças nunca haviam visto nenhuma daquelas fotografias.  
        — Puxa, já existia câmera fotográfica nessa época? — Tomás maravilhou-se.
        — Ah, Tomás, deixa de ser bobo! O vovô não é tão velho assim.
         A fotografia seguinte também retratava o avô dos meninos, na faixa dos 20 anos, em frente a um prédio altíssimo, vestindo terno e gravata. No canto direito inferior, o local onde a fotografia fora tirada: Centro – Rio de Janeiro (RJ).
         — Este é um verdadeiro arranha-céu, não é, Tomás? — Marília apontou para a foto.
         — Só pode ser. Na cidade, deve ter um monte desses. É por isso que chove tanto...
         — O que os arranha-céus têm a ver com a chuva?
         — Bom, já que esses prédios arranham, o céu deve sentir uma dor danada! E é por isso que ele chora...  As gotas de chuva são as lágrimas do céu...
        A ingenuidade do irmão divertiu Marília. Quem sabe o menino não tinha uma veia poética?
         As crianças continuaram com a investigação. Quem será que havia lhes enviado a caixa? Alguém próximo a seu avô, provavelmente, a julgar pela quantidade de fotos dele. Mas... De quem seria aquele caderninho de desenhos? Tomás resolveu pegá-lo para si, só para conferir se as pinturas infantis lhes forneceriam algumas pistas de seu dono.
         A maioria dos desenhos tentava reproduzir, permeados de traços infantis, a casa onde moravam. Alguns deles, devido a alguns borrões e erros, nem haviam sido contemplados com os riscos de lápis de cor. Outros, por sua vez, muito bem-feitos, ganhavam vida onde predominavam as cores amarela, vermelha, azul e verde.
         Na última folha do caderno, uma singela mensagem. E não em caráter pessoal, e, sim, para todos os que querem viver e não apenas existir.
              O grande homem é aquele que não perdeu a candura de sua infância
                                                                                     Provérbio chinês
         Abaixo, mais um recado, desta vez, destinado diretamente às crianças:
         Espero que vocês nunca se esqueçam de quem vocês são realmente. Por mais que estejamos longe uns dos outros, gostaria que vocês mantivessem a simplicidade e a inocência natural das crianças. Sei que isso é difícil, principalmente para aqueles que vivem na cidade (para onde vocês irão daqui a uma semana), onde os monstruosos avanços tecnológicos inibem a criatividade.
       Não deixem que os arranha-céus da vida escondam o brilho de vocês e os envergonhem de seus sonhos. Mas, se um dia,  as ruas da cidade parecerem ferozes demais para vocês, lembrem-se que o seu velho povoará para sempre seus corações.
                                   Com amor,
                                       Vovô
         Tomás e Marília se encaminharam até a varanda e pularam no colo do avô, felizes por descobrirem quem havia lhes enviado a caixa e, acima de tudo, conscientes de que não esqueceriam nunca aquela barba branca, as bochechas coradas e os olhos castanhos tão especiais.  
                           

         


quinta-feira, 16 de junho de 2011

Fragrâncias Noturnas



         Era diamante.
         Papéis, vasos, rosas, veludo, tapete, ouro, vinho, cristal.
         E água.
         Dançavam e comemoravam na magia da casa a chegada da chuva.
         O relógio, preguiçoso, concluíra o movimento de seus ponteiros, que marcavam 1h30 da manhã. O momento, é claro, há muito já transcorrera. Mas, durante a madrugada, tudo é eterno.
         A decoração moderna da sala de estar não ocultava a melancolia ainda presente na casa.
         A chuva se intensificou.
         Tempestade.
         Os cômodos, loucos por apoio uns dos outros, acendiam e apagavam suas respectivas luzes, alternadamente. A sala acendia a luz do abajur, como se enviasse uma mensagem para  a cozinha, para que esta ficasse calma e desse um jeito de fechar sua pequena janela, e evitar que a mesa de jantar ficasse encharcada.
         E então, definitivamente, toda a claridade proveniente das lâmpadas desapareceu.
         O escuro expulsou a luz a pontapés.
         Os tiros d’água eram violentamente disparados contra a porta de vidro da varanda. As formas das plantas, subitamente iluminadas por um relâmpago, entre severas rajadas de vento, pintavam um cenário de horrores diante da casa solitária e assustada. Aquela que outrora oferecera proteção, agora, reduzira-se ao mínimo, mera obra-prima dos homens. Revelava-se incompetente em suas tarefas primordiais, especialmente para os seus donos, que a construíram à base de muita inspiração e nenhuma transpiração.
         Todos os móveis agregaram-se na sala, ignorando o perigo iminente.
         As  águas invadiram a entrada principal, afogando tudo o que vinha pela frente, sem pudor nem piedade. Seu encontro com os móveis se deu de forma lenta e agonizante. Ultrapassadas as barreiras de início, foi a vez de a pesada porta de mogno ceder.
         Sem chances.
         Sem lugar para onde ir.
         Estragados, cheios, afogadas, encharcados, enferrujados, aguados e cada vez mais brilhantes.
         A água sorvia as peculiaridades de cada artefato ali presente e não mais viventes. O jogo de cores violento transformava-se em um anacrônico e torturante círculo de imagens. Um majestoso Mussorgsky dava o ar da graça, fazendo-se ouvir acima do refrescante ruído das águas. Quadros, não pintados à óleo, e, sim, de materiais variados, seguiam sua ordem perfeita na inóspita exposição.
         O ritmo dos fenômenos naturais e materiais desacelerou, após uma série de figuras em sequência não linear.
         Após a tempestade, vem a bonança.
         Única tranquilidade sobrevivente, as damas-da-noite exalavam seu suave e adocicado perfume, unindo-se às demais fragrâncias noturnas. Era o aroma da esperança para um lar recém-dilacerado.  

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sombras






           Meus olhos se abriram em meio ao choque denso entre devaneios e realidade. Um gesto quase mecânico, movimento involuntário que comunicava o perigo iminente por volta das dez da manhã.
           O porão dos meus vizinhos, parcialmente destruído, desistira de se reerguer após o caos gerado pelas bombas lançadas contra o Centro da cidade na noite anterior.
            Levantei-me prontamente do chão e comecei a procurá-los. Subi as escadas em direção ao que antes havia sido a sala de estar do casal amigo dos meus pais, que gentilmente aceitaram que eu me refugiasse lá, junto deles. Como eu tinha mais três irmãos, minha mãe achou melhor que todos nós nos escondêssemos em lugares diferentes; uma vez que, dessa maneira, seria improvável que todos morressem, o que fatalmente ocorreria caso a família inteira resolvesse se abrigar no pequeno apartamento onde morávamos há quatro anos, pouco antes do início dos conflitos.
           Minhas esperanças morriam à medida que eu avançava nos degraus. Era óbvio que, se o porão se encontrava naquele estado deplorável, a situação do resto da casa seria ainda pior.
           E eu nem imaginava o quanto.
           Antes que eu pudesse avistar as ruínas da casa, um pequeno espelho caído num dos degraus da escada já me preparava para o que eu podia encontrar. Ao ver meu reflexo ali, recuei um ou dois degraus, reprimi um grito e levei uma das mãos à boca. Eu me vi completamente coberta de poeira e me perguntei como não havia percebido aquilo antes. No momento dos bombardeios, sempre me diziam: “Por tudo que é mais sagrado, jamais abra os olhos!”. E eu sempre obedecia. E eu não tinha certeza se aquilo era apenas para proteger a minha visão ou também o meu coração.
           Uma lágrima escorreu pelo meu rosto, um fio de pureza entre as escórias. Ela era simplesmente uma afronta ao restante do meu corpo. Não ousei secá-la. Era o meu troféu.
            Imediatamente, reuni todas minhas energias possíveis para sair do porão e começar a busca pelos meus familiares e amigos, que ainda deviam estar soterrados entre os escombros das construções.
            Mas não foi o que eu vi  que me destruiu por dentro.
            Foi o que eu senti em seguida.
            A casa dos meus vizinhos simplesmente não existia mais. Tudo o que lá havia: eletrodomésticos, móveis, roupas, alimentos, livros, CDs, todo o trabalho de uma vida, extinto.
            Os prédios ao redor eram só uma série de amontoados de concreto desordenados. Inclusive aquele onde antes eu habitava.  Os danos materiais não eram nada comparados a...
            Meu pensamento esvaiu-se pelos ares poluídos.
            Ninguém da minha família estava ali. Sequer conhecidos meus. Caminhei pelas ruínas, passei por cima de muitos cadáveres. Só, cadáveres, eu não tinha lágrimas suficientes para eles. Eles estariam ali, cedo ou tarde.
            O sopro dos anjos veio, congelante, tornando minha missão ainda mais tortuosa e pungente. Eu estremeci, enquanto aconchegava-me no meu casaco velho e puído.
            A disposição das nuvens me sufocava.
            Uma pomba, alheia a todos os acontecimentos em terra, sobrevoou os estragos. Acenei para ela até não ser mais capaz de distingui-la entre a brancura imaculada do Céu, o reino ao qual a ave pertencia. Ela se limitou a seguir o próprio caminho ao não compreender meus apelos.
            Depois de incontáveis minutos de procuras infrutíferas, debaixo de parte de uma parede, vi uma mãozinha de bebê, que levava uma pulseira banhada a ouro com um nome gravado.
            Clara.
            Minha irmãzinha.
            Eu urrei.
            Ninguém me ouviu.