Só porque as gotas gélidas de chuva encharcavam seus pés, o peito e ele corria o risco de ficar gripado. Não fosse por isso, ele teria ficado a tarde inteira jogando bola com os meninos de seu bairro, num campinho próximo ao parque quase abandonado e carente de crianças, provavelmente já enlameado àquela hora.
Não levara guarda-chuva, desconsiderando os avisos carinhosos de preocupação de sua mãe. Ela só havia ficado receosa porque o filho vestia roupas novas. Quer dizer, novas só para ele. Ao seu ver, já tinham sido usadas pelos meninos ricos que não brincavam no campinho e ficavam trancados em seus quartos, contando seu dinheiro, só para ter certeza de que ainda eram ricos.
O que realmente importava naquele instante era chegar logo em casa, antes que o jantar fosse servido. Antes até que seu irmão, o guloso, sentasse à mesa e se beneficiasse da farta refeição que raramente tinham a oportunidade de ter. E ele não fazia mais nada em casa, não ajudara a mãe a arrumar a casa, por exemplo. E só vivia resmungando pelos cantos. Ele era mesmo um chato!
Mas a chuva caía torrencialmente, como se o castigasse por ter implicado com o irmão, ainda que só em pensamentos. A mãe o mataria se o visse chegando em casa daquele jeito, com a camisa embebida numa mistura de água da chuva e suor, embaixo das axilas, e lama, reclamando que teria um trabalhão para limpar.
Logo já se distanciara da rua do campinho, subindo mais alguns metros pela calçada rumo à casa. Estava prestes a enfrentar a temível ladeira da Rua 15, que, em temporadas de chuva, transformava-se numa verdadeira cachoeira, originando um riacho que desaguava na Avenida Miraflores, indo de encontro aos carros que trafegavam pelo local.
As águas desciam com força enquanto o garoto lutava para caminhar contra elas. Ele riu consigo mesmo da ideia do "rio às avessas": as margens continham água em abundância, enquanto seu leito permanecia quase seco. O asfalto brilhava com pequenas gotículas de diamante.
Com muita dificuldade, ele pôde alcançar o topo da ladeira, com o mesmo orgulho de alguém que tivesse acabado de chegar ao ponto mais alto do Monte Everest. De lá, via toda a cidade.
E, só durante alguns instantes, foi como se seus problemas tivessem evaporado.
Apesar de pequeno, era dono de uma fantástica capacidade de se impressionar com as coisas simples. E, para ele, era interessante observar como a chuva acalmava os ânimos urbanos.
Ao longe, um barquinho de papel deixava-se levar pelo som melodioso das águas entre os cascalhos e pedras distribuídos aleatoriamente, onde os pés não podiam atingir.
E seguiu seu caminho, temendo nunca mais encontrar aqueles personagens anônimos novamente.

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