terça-feira, 29 de março de 2011

Águas de fim de tarde




     Só porque as gotas gélidas de chuva encharcavam seus pés, o peito e ele corria o risco de ficar gripado.  Não fosse por isso, ele teria ficado a tarde inteira jogando bola com os meninos de seu bairro, num campinho próximo ao parque quase abandonado e carente de crianças, provavelmente já enlameado àquela hora. 
     Não levara guarda-chuva, desconsiderando os avisos carinhosos de preocupação de sua mãe. Ela só havia ficado receosa porque o filho vestia roupas novas. Quer dizer, novas só para ele. Ao seu ver, já tinham sido usadas pelos meninos ricos que não brincavam no campinho e ficavam trancados em seus quartos, contando seu dinheiro, só para ter certeza de que ainda eram ricos. 
     O que realmente importava naquele instante era chegar logo em casa, antes que o jantar fosse servido. Antes até que seu irmão, o guloso, sentasse à mesa e se beneficiasse da farta refeição que raramente tinham a oportunidade de ter. E ele não fazia mais nada em casa, não ajudara a mãe a arrumar a casa, por exemplo. E só vivia resmungando pelos cantos. Ele era mesmo um chato!
     Mas a chuva caía torrencialmente, como se o castigasse por ter implicado com o irmão, ainda que só em pensamentos. A mãe o mataria se o visse chegando em casa daquele jeito, com a camisa embebida numa mistura de água da chuva e suor, embaixo das axilas, e lama, reclamando que teria um trabalhão para limpar. 
      Logo já se distanciara da rua do campinho, subindo mais alguns metros pela calçada rumo à casa. Estava prestes a enfrentar a temível ladeira da Rua 15, que, em temporadas de chuva, transformava-se numa verdadeira cachoeira, originando um riacho que desaguava na Avenida Miraflores, indo de encontro aos carros que trafegavam pelo local. 
      As águas desciam com força enquanto o garoto lutava para caminhar contra elas. Ele riu consigo mesmo da ideia do "rio às avessas": as margens continham água em abundância, enquanto seu leito permanecia quase seco. O asfalto brilhava com pequenas gotículas de diamante. 
      Com muita dificuldade, ele pôde alcançar o topo da ladeira, com o mesmo orgulho de alguém que tivesse acabado de chegar ao ponto mais alto do Monte Everest. De lá, via toda a cidade. 
      E, só durante alguns instantes, foi como se seus problemas tivessem evaporado. 
      Apesar de pequeno, era dono de uma fantástica capacidade de se impressionar com as coisas simples. E, para ele, era interessante observar como a chuva acalmava os ânimos urbanos. 
      Ao longe, um barquinho de papel deixava-se levar pelo som melodioso das águas entre os cascalhos e pedras distribuídos aleatoriamente, onde os pés não podiam atingir. 
      E seguiu seu caminho, temendo nunca mais encontrar aqueles personagens anônimos novamente. 

quinta-feira, 24 de março de 2011

Deixe a luz entrar


      As paredes acolchoadas que revestiam o quarto a sufocavam. Eram até piores do que a camisa-de-força que puseram nela, mesmo quando não houve maiores protestos de sua parte. Com o tempo, perdera a habilidade de reivindicar sua liberdade, pois tinha aprendido, sozinha, que tal atitude só forneceria aos outros mais evidências de sua suposta loucura.
      Mas ela não era louca.                       
      Não era.
      Queria poder gritar aquilo aos quatro cantos do planeta, ainda que tivesse consciência de que aquilo só faria piorar sua situação.
      Limitou-se a fitar um ponto qualquer no teto do cômodo.
       — Até o mais sensato dos mortais enlouqueceria vivendo aqui...
       A voz neutra não a assustou, embora não houvesse ninguém no quarto junto dela.
       — Concordo em gênero, número e grau — a resposta dada, seca como um deserto, parecia ter sido o cadeado que lacrava todas as possibilidades de continuidade ao diálogo pré-estabelecido.
       — Não sente vontade de sair? — a pergunta em retorno era a chave.
       Ela soltou o ar, desejando que o gesto libertasse todas as angústias presas em seu coração. 
       — Já tentei, mas...
       — Não foi isso que eu perguntei — a voz interrompeu bruscamente — Quero saber se já sentiu vontade de sair daqui.
       O verbo querer empregado no tempo presente atribuía maior importância ao desejo da voz do que a informação a ser dada em si.
       — Ainda sinto — sua voz tornava claro seu estado de quase transe.
       — E o que acha que está fazendo aqui?
       — Eu não acho nada! — ela retrucou, enquanto procurava sentar-se em uma posição confortável sem o auxílio dos braços.
       —  Eu não acho nada! — a voz arremedou.  Não tem vergonha de não ter pensamentos próprios? E as suas convicções? Onde estão?
       — Não conseguiram atravessar a porta de ferro da entrada. Não percebe? — ela fez um gesto com a cabeça, indicando a porta. 
       — Sim, muito claramente.
       — E então?
       — E então o que?
       — O que vai dizer a respeito dos meus “pensamentos e convicções”? — ela apertou os dedos por baixo das amarras frouxas da camisa, pretendendo representar as aspas. Mas era provável que o (a) autor(a) da voz conhecesse o tom que empregava.
       —  Deixe isso para lá.  Mas, então, conte-me...  Por que veio para cá?
       — Não estou a fim... Aliás, se eu te contasse, você desapareceria para sempre... E eu não quero ficar sozinha novamente... Afinal de contas, quem é você? É alguma merda de psicólogo dessa porra de clínica?! 
       A resposta não foi imediata. Parecia que seu interlocutor avaliava a qualidade de sua fala, no momento em que cogitava algo razoável para dizer. 
        — Diga-me: Acreditas em Deus?
        Ela gargalhou alto. 
        — Oh, sim! "O Senhor é meu pastor e nada me faltará". O célebre e apreciado Salmo 23. É isso que quer que eu diga? Eu posso recitar cada versículo da Bíblia, não que isso me torne alguém melhor. As finíssimas e áureas páginas do Livro Sagrado foram suficientes para constituir minha máscara por muito tempo... Mas agora, não é mais. E você, por que acredita? 
         — Não me lembro de ter dito que acreditava... E você nem respondeu minha pergunta. Sim ou não?
         — Isso não importa... Só digo que esses questionamentos clichês não me agradam. 
         — Não. 
         — Não o que? 
         — Não sou nenhuma merda de psicólogo dessa porra de clínica. 
          A jovem sorriu enviesado. A voz não hesitara em reproduzir seus palavrões. 
          — Menos mau. 
          — Sim. 
          — Sim o que? — ela bufou e revirou os olhos — Você já está começando a me irritar, sabia? 
          — Eu acredito em Deus. 
          — Você é bem lerdo para responder as minhas perguntas... E então, por que acredita em Deus? Por que seus pais desde pequenos o forçaram a isso? E você simplesmente aquiesceu? 
          — O que te faz pensar que eu sou um homem? 
          — O fato de que você é um idiota patológico, o pior tipo! 
          — Sim. 
         Ela riu prazerosamente. 
          — Se é assim... Quem sou eu para discordar? 
          — Eu só estava respondendo a sua pergunta. Sim, em parte é verdade... Mas... Depois... Eu aprendi a acreditar em Deus. 
          Pausa. 
         — Há quanto tempo está aqui?
         Ela se recostou na cadeira e resmungou. 
         — Há tempo suficiente para odiar este lugar... 
         A voz embaraçou-se com a resposta dada pela jovem. 
         O ponteiro do relógio moveu-se cinco vezes. 
         Tic-tac Tic-tac Tic-tac Tic-tac Tic-tac. 
         — E os seus amigos? — a voz vibrava como o som de um tambor na mente da menina, como se estivesse amplificando, ao mesmo tempo, o ruído desagradável dos segundos imortais.  
         — Eu não tenho... Não mais...
         — O que eles pensavam de você? — as dúvidas inúteis da voz tinham este grande defeito: eram contínuas, incessantes, impertinentes...
         — Estou pouco me importando com isso...
         — Eu amo os meus amigos. Não sei o que seria da minha vida sem eles...
         Ela deu de ombros.
         — Eu não te perguntei nada...
         — E eu não necessito de sua aprovação para dizer algo. Já recebi minha carta de alforria, muito obrigada. 
         Ela permaneceu longos segundos sem abrir a boca. Visto que o diálogo poderia estar perdido, a voz tentou:
         — Na verdade, não interessa muito o que eles pensam ou pensavam de você. Só aquilo que você acha de si mesma pode te conduzir ao invejável sucesso ou ao irrevogável fracasso. As palavras dos outros são grãos de areia frente às imponentes falésias, como aquelas que você via quando viajava para o litoral com seus tios... 
         — Como sabe disso...? — a jovem estava boquiaberta, quase atingindo a inabilidade de raciocinar.
         Ausência de sons por mais uns inexpressivos instantes. 
         — E os seus pais? — a voz fugira da indagação da outra. 
         — Meu pai é um inútil desgraçado... E a minha mãe... Bem... Ela não gosta de mim.  
         — Como pode ter certeza disso?
         — Porque eu a matei, então, ela deve me odiar... — ela nunca constatara o impacto que aquela frase causava em seus receptores. 
         E nem a voz se sentira mais incomodada.
         — É por isso que veio para cá? 
         — O que você acha, imbecil?!
         — Eu não acho nada! 
         A frase já havia sido dita, minutos antes. E não seria de seu gosto que a conversa tivesse seu rumo alterado ou, pior ainda, regredisse. Ela riu fracamente. 
         — Tem uma bacia d'água em frente a cadeira onde você está sentada, não tem?
         Ela se esticou para a frente a fim de confirmar a existência do objeto. 
         — Tem sim.  — ela disse, impaciente e entediada.
         — Você pode ver seu reflexo através da água. Ande até lá e faça isso. 
         Ela cumpriu às ordens, submissa. 
         Observou sua imagem refletida na superfície límpida da água, que oscilou um pouco quando ela se aproximou, devido aos seus passos fortes e decididos que colidiram contra a mesa na qual a bacia fora posta. Era quase como ver um filme em uma televisão cheia de chuviscos. Uma comparação reconhecidamente empobrecedora. 
         — Você sabe quem sou eu?
         Pôde compreender tudo, enfim. 
         Os movimentos de seus lábios encontravam-se perfeitamente sincronizados com o que a voz dizia. Entretanto, aquelas palavras não vinham de dentro dela. Aparentavam ter sido transformadas em vapor. 
         Estavam espalhadas pelo quarto. 
         Em todo lugar. 
         — EU SOU VOCÊ. 
         Seu sangue congelou. Os ruídos produzidos a partir daquela fala reverberaram pelo minúsculo quarto. 
         — Tire essa sua ridícula camisa-de-força. Eu sei que ela está bem frouxa em você. Tenho certeza de que isso foi feito propositalmente... — sua tentativa de riso converteu-se numa horrenda carranca. 
          Assustada, ela seguiu prontamente à instrução dada, atirando a camisa-de-força ao chão. 
          — Pegue seu estilete. 
          Ela tentou negar que estivesse escondendo tal objeto. 
          — Eu sei que você o tem. PEGUE-O. 
          Ela esticou a mão e retirou-o do bolso da calça, ainda relutante. Havia tido um vislumbre, uma vaga ideia do que a voz a obrigaria a fazer. Fechou os olhos intensamente para evitar que as lágrimas caíssem. Viu a lâmina suja do estilete, ainda impressionada por ninguém tê-lo apreendido, e nem mesmo desconfiado de que ela o possuía. Parecia que tudo tinha sido bem planejado, desde o início. 
         Desde o maldito início. 
        Claro, aquilo nada mais era do que um complô! Esquema traçado com perfeição, calculado nos mínimos detalhes. 
         Todos queriam assistir ao espetáculo de sua aniquilação. 
         Sua auto-aniquilação. 
         — Já sabe o que fazer. — a voz soou aterradoramente soturna. Como se a voz estivesse rouca. Talvez porque aquelas seriam suas últimas palavras... 
         O vermelho foi expulso de seu corpo num ímpeto, desenhando no acolchoado até então imaculado uma série de pontes ardentes e frágeis entre a vida e a morte.  A primeira distanciava-se a cada segundo passado, enquanto que a segunda preparava-se para recepcioná-la do outro lado. 
         Sua energia esvaía-se cada vez mais, e ela reservava sua triunfal queda para o Grand Finale  da apresentação. 
         Deixe a luz entrar enquanto o Sol está tinindo lá fora...  — ela pôde se lembrar da canção favorita de sua mãe. 
         Contudo, o tempo é impiedoso. Arrependimentos tardios não são válidos. 
         E ainda restariam aqueles hipócritas profissionais da saúde! Nem mesmo eram dignos de  serem chamados de tal forma. Ainda assim, devia considerá-los, antes que deixasse a luz entrar. 
         Ao menos, uma mensagem. 
         Uma singela despedida.
         Antes que a cor rubra predominasse no quarto...
         Só pelo seu simplório ato de pensar no próximo, rajadas de luz iluminaram o cômodo, apesar da falta de janelas.  
          E o seu recado, naturalmente, estava mais do que pronto para ser lido, já que fora escrito à custa de dores dilacerantes. 
           Vejo vocês no Inferno... 
          
           
     
         


          



      

quinta-feira, 17 de março de 2011

Sob os vitrais da Catedral





       


        Por fora, imponente e majestosa. Catedral adentro, e seus caminhos desemaranhavam-se em uma série de degraus de pedra, conduzindo-me para um recanto de paz quase mórbida, em meio às ruínas internas e consecutivas geradas por transtornos notadamente urbanos.
        O cheiro úmido, misturado ao mofo, não era  tão desagradável quanto parece ao olfato, nem aos olhos  que anseiam por palavras fartas de significado e que enchem nossas bocas com sons espectrais; nem aos ouvidos, que catam sopros afinados dentre os ruídos rascantes, com os quais muitas vezes se confundem.
        Meus pés tomaram as ações do resto do corpo, e puseram-se a subir a escada cinzenta, cada passo, uma libertação. Ou, pelo menos, representava metade do caminho para ela. Primeiramente, a libertação. Posteriormente, a liberdade.
        As paredes de altura incalculável me protegeram dos raios de Sol, precocemente impetuosos àquela hora da manhã. Eram revestidas de belíssimas pinturas, por toda parte, impecavelmente coloridas, cada traço revelava fielmente uma emoção naqueles rostos inalcançáveis.
        Deus não nos fez a sua imagem e semelhança?
        Os  inúmeros bancos de madeira não serviam de suporte para ninguém. Era como se toda a catedral houvesse sido transportada para  outra dimensão, e não existissem mais humanos ali além de mim.
        Sentei-me em um deles, visualizando diretamente o altar e os enormes vitrais coloridos, que remetiam à Idade Média, tão distante do mundo contemporâneo e, ainda assim, tão perto.  Sempre achei a arquitetura das catedrais fantástica, um dos poucos sinais de que podemos estar próximos do Criador.
       Iniciei um diálogo, mesmo que estivesse além de meu receptor.
       — Senhor, pode me ouvir?
       Não houve resposta.
       Segui em frente.
       — Eu sei que muitas vezes eu não me dou ao trabalho de vir a Sua casa para Lhe falar algo, que geralmente eu faço isso por conta própria, sem ninguém, em meu próprio canto. Mas dizem que o Senhor só estará em algum lugar quando houver mais de um, o que quer dizer que nunca está presente quando eu rezo. Bem, eu vim para cá e não tem mais ninguém além de mim, o que provavelmente significa que não estás aqui também. Entretanto, algo me diz que devo continuar...
        “Não estou aqui para Lhe pedir algo, como todos fazem. Aliás, eu não sei como o Senhor consegue atender a tantos pedidos! Eu sei que nem ficam satisfeitos e que o Senhor só atende a aqueles que realmente merecem. Não sei se isso é decidido pelo nível da Fé ou pela vontade de transformar a vida para sempre...
         “Na realidade, eu vim aqui para agradecer.
         “Agradeço pelos sábados de manhã. Não existe nada melhor do que poder se revirar na cama por um pouco mais de tempo, antes que a necessidade de se levantar e se desvencilhar do ócio grite pelo meu nome desesperadamente. É reconfortante espreguiçar-se protegido pelos cuidados quase sufocantes dos cobertores sobre a pele.
         “Agradeço por ter amigos, e por eles serem tão fiéis a mim. Eu não sei se o Senhor os pôs em minha vida intencionalmente, ou se foi mais desses ‘acasos’. Se bem que eu não acredito plenamente que alguma coisa aconteça sem fundamento.
         “Agradeço pelo grande círculo policromático que é a natureza. Não seria estranho se a neve fosse cor-de-rosa e as matas, arroxeadas? As nuances trabalham em perfeita harmonia. Eu não seria capaz de escolhê-las melhor.
         “Agradeço por ter me concebido visão e audição perfeitas. Não me sentiria completo se não pudesse ouvir às minhas músicas e ler cada palavra que foi escrita nos livros, da maneira como foi imaginada.
         “Agradeço pela madrugada, como se a transição da noite para o dia me trouxesse o nascimento de novas ideias. Elas são essenciais para mim.
          “ E, por último, agradeço a capacidade de ser grato.”
          Até então, eu permanecera com os olhos fechados, na esperança de atingir um estado de total concentração. Lentamente, abri-os novamente.
          Os raios de Sol penetravam através dos belíssimos vitrais daquela catedral há muito submersa. Iluminavam não só meus cabelos, evidenciando os tons fortes de louro, mas também minha mente, como se, de repente, eu tivesse encontrado a resposta para uma pergunta há muito tempo feita.
          Sim, Ele estava lá. 

domingo, 13 de março de 2011

Pela Janela








Pela janela 
vejo a noite-chuva.
Gotas iluminadas
pelos postes de luz amarela. 


Que entram sem permissão
em meu quarto
não levantam a cabeça, 
nem pedem perdão.

Eles me dizem que te avistaram lá fora.
Não sei se é verdade.
E nem quero saber. 
Para que?

Permaneceram lá
Junto de mim
Sentaram-se em minha cama
Servi-lhes um café.

E nos contentamos 
Com o sabor amargo do esquecimento
Enquanto um carro passava ao longe
Fazia squash no asfalto
Enquanto morria na esquina na madrugada... 

sábado, 12 de março de 2011

Em Definitivo








Quando a tristeza chegar
 Sozinho quero estar 
Longe da terra
Perto do mar 

Céu bloqueado 
Pensamento sufocado
Falar por falar 
E um suspiro no ar 

Em seu refúgio longínquo
Restrito infinito 
E só observa 
Enquanto o olhar reserva 

Lembranças...
Lembranças... 

Quando a tristeza passar 
Com você quero estar
Perto da terra 
Longe do mar 



sexta-feira, 11 de março de 2011

Jornada Extraordinária


           


         Manhã de Sol. Teria sido só mais um bucólico amanhecer – não fosse a visão do voo da cotovia, ave dona de um dos mais belos cantos existentes entre o Reino Animal.
           Tive a oportunidade de mirá-la ainda próxima ao solo, enquanto dirigia-me  ao curral a fim de ordenhar as vacas que pertenciam ao meu tio. Eu morava na casa-grande  há quatro anos, quando ainda contava 12 anos de  vida.  O hábito diário não fazia com que a paisagem da fazenda perdesse seu encanto, mas sempre adquiria melhores olhares quando acompanhadas pela beleza do pássaro.
           Antes que pudesse abrir o portão do curral, fui instantaneamente seduzida pela ascensão da cotovia. Abandonei as tarefas às quais fui incumbida e desejei poder voar junto com aquela magnífica ave.
           Sua subida foi fascinante embora lenta. À medida que alcançava novas altitudes, ondulava-se ao vento, sem medo de que as correntes a desviassem de seu percurso original.  Corri para alcançá-la, meus passos quase tão leves quanto plumas, na tentativa de que sua insustentável leveza influenciasse a mim também.
           Dei por mim quando já havia percorrido, aproximadamente, uns quinhentos metros, sentindo-me aconchegada nas suaves asas da cotovia. Afastei-me rapidamente dos domínios da fazenda para adentrar nos territórios da fantasia. Mesmo que a realidade ali presente fosse incontestável. Respirei fundo, o ar purificou meus pulmões. Encontrei imensa dificuldade em acompanhar seu curso e sua velocidade, no momento em que ela subia a uma altura tão elevada que por pouco não fui capaz de enxergá-la. E essa seria minha eterna desilusão.
           A cotovia, em seu espetacular voo, descrevia curvas improváveis. Até que atingiu um ponto no céu, a partir do qual iniciou uma série de círculos perfeitos, e começou a cantar.
          Ah, que maravilha!
           Desejei fechar os olhos para apreciar melhor aqueles sons que nem o mais sensível compositor seria capaz de reproduzir com igual perfeição. Entretanto, não queria perdê-la do alcance de meus olhos. O voo e o cântico deveriam ser contemplados em conjunto, na mais perfeita harmonia.
           O Sol exercia um papel fundamental no que diz respeito à iluminação. Sua luz permitia que as cores das penas da ave não passassem despercebidas, tornando seu tom levemente acastanhado mais vívido.
           As copas das frondosas e esparsas árvores serviam de testemunha daquele instante tão especial.  A cotovia não cansava de subir, assim como eu não cansava de avançar pelos prados ricos em verde.
           Uma explosão de sentidos. Pés e roupas de baixo subitamente encharcados. O desnível e a possibilidade de um perigo iminente fez com que meu coração disparasse em batimentos amedrontados. Achei-me em um riacho que cortava o  campo, deixando que suas alegrias se esvaíssem em águas cristalinas, ainda mais claras devido à luz solar. Observei meu reflexo, deparando-me com uma versão boquiaberta de mim. Rugas e linhas de expressão que antes não estavam ali agora dominavam meu rosto, sem que eu desse permissão para que elas pudessem entrar. A preocupação que se originou desse incompreensível fato fez com que as rugas se evidenciassem mais. O tempo não deixa mensagens avisando que está vindo; ele é a própria mensagem. Embora viesse precocemente, encontram-se motivos de sobra para a sua visita. Constatei que, como resultado daquelas repentinas mudanças em minha aparência, tive a sensação de estar mudada também por dentro. Mais serenidade. Mais confiança. Mais maturidade. E – por que não? – mais tempo perdido. 
           Temi que aquela pausa fosse suficiente para que a cotovia se afastasse muito de mim, porém ela ainda pairava em meio ao azul celeste, sua primorosa moldura.  Quiçá, ela estivesse me esperando, com a fidelidade com a qual um animal de estimação acompanha o dono em suas breves caminhadas.
           Após eu continuar a seguir o caminho, a cotovia voou ainda mais alto do que eu imaginava ser possível. Logo, logo, alcançaria o espaço; admiraria, de perto, a beleza da lua e um pequeno vislumbre da grandeza do Universo.
           Transpus pontes curtas, estradas longas, terrenos tortuosos e vegetações densas, tudo sendo simultaneamente recompensado pela jovialidade do sorriso que mantive estampado em meu rosto ao vê-la no ar. Contudo, o tempo também era impiedoso: acelerou consideravelmente sua velocidade, tudo para não me conceder o prazer de continuar olhando-a.
            Até que houve um momento em que ela começou a perder altura. Sua descida foi rápida, como se sua imponência tivesse decaído e estivesse me dando adeus.  Embora nunca atingisse o chão novamente, aquela foi, para mim, a mais vertiginosa das quedas, anunciando uma lamentável perda de brilho. A ascensão é dura, a queda, simples. Senti pena ao presenciar tão melancólico instante. Instante esse que, felizmente, foi passageiro.
            Logo ela foi alçou voo rumo ao paraíso. Encantou-me durante mais alguns minutos; sua despedida foi inevitável. Inoportuna ocasião. Eu já havia sido cativada por seus inconscientes feitiços, de modo que já não restava mais nada dentro de mim. Vazia, vazia mesmo. Meu estado absoluto. E também envelhecida. Não importava mais dizer quantas primaveras eu havia acabado de presenciar, o certo é que elas seriam eternas.
            E o tempo passou, implacável. 
            Evaporou por entre meus dedos, assim como o sonho de voar com a cotovia, que já se encontrava cada vez mais distante de mim. Era a consequência de almejar coisas impossíveis. 
            Longos cabelos brancos repousavam em meus ombros, conciliando-se com as minhas já antigas companheiras rugas e olheiras.  E uma novidade, tão escassa: uma lágrima brotou, percorreu meu rosto e foi refugiar-se nas profundezas da natureza, a mesma que um dia conferira  à cotovia o mais pleno direito: o de decidir o fluxo de sua própria jornada extraordinária.