quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Música do Tempo

    
     — Tem certeza de que é isso que você deseja tocar no recital? — perguntou David a Lucille, enquanto folheava distraidamente o caderno de partituras da jovem violinista. Lucille percebera certo tom de desdém na voz do rapaz ao empregar a palavra isso, como se o nome da canção fosse abjeto em demasia para não ser pronunciado por pessoas que se consideravam suficientemente cultas.
     Sentindo-se ofendida, num gesto seco, tomou o caderno das mãos de David, fechou-o e guardou-o dentro de sua mochila. 
     Isso é música de verdade. Muito melhor do que esses sons horríveis que você ouve no rádio a tão alto volume!
     David revirou os olhos, encostando um dos pés na parede atrás de si. 
     — Não foi isso que eu quis dizer. É que não é muito conhecida...
     Lucille deu de ombros. Nunca deixava-se abater pelo que os outros diziam, nem mesmo quando as duras palavras eram proferidas por David. Ela interpretaria, no próximo recital a ser realizado, uma peça para piano e violino, composta pelo francês Claude Debussy. A maioria dos estudantes de música do conservatório restringiam-se a tocar as famosas sonatas e os inesquecíveis noturnos de compositores como Beethoven e Chopin; tornando-se alvos constantes de críticas ao errar uma nota. Mesmo os que menos entendiam de música clássica apreciavam ouvir os movimentos da 9ª Sinfonia, tão difundidos pela Televisão e Cinema, interpretados por corpos e mentes adolescentes. 
      Ao escolher músicas praticamente desconhecidas do grande público, Lucille tinha como objetivo ampliar os conhecimentos a respeito da Primeira Arte daqueles que frequentavam os recitais, e, até mesmo, incentivá-los a  tocar algum instrumento clássico.  A verdade é que a menina gostava de inovar. 
      Os dois demoraram-se mais alguns minutos na sala de música, onde os alunos poderiam treinar seus talentos para as apresentações. David concentrava-se ao piano, tentando acompanhar Lucille. Esta, tentava buscar a essência da composição. Por trás das melancólicas notas de Beau Soir , arrancava lágrimas doídas e secas do violino.  O arco subia e descia pelas cordas, um trabalho que fluía harmoniosamente com o tempo. Ao ressoar da última nota, suspiros iriam pairar pelo imenso auditório. 
      — Acho que podemos parar por aqui. —  concluiu David, fechando o piano. 
      —  E vamos sair logo agora? —  Lucille ainda segurava o violino, apontando para a janela da sala com o arco. —  Parece que uma nevasca se aproxima.
      David virou-se para ver e não pôde deixar de abrir um pouquinho a janela. 
      O vento frio penetrou na sala de música, elevou as cortinas até o teto no balanço violento e invisível, como se assustadores fantasmas tomassem forma no tecido. 
      — É melhor que fiquemos aqui — Lucille limpava os resquícios de resina do violino com uma flanela, acomodando-se numa das inúmeras poltronas. 
      —  Mas já estamos aqui o dia inteiro! — David guinchou, esforçando-se para empurrar o vidro da janela. Quando conseguiu, soltou o ar de alívio. 
      — Excelente! Talvez o doce aroma dos livros de partituras e dos instrumentos musicais nos inspire para o recital de amanhã. O que é o talento para a música sem a sua constante aplicação? Não se toca música quinze minutos por dia apenas para depois esquecê-la; ela é o pensamento frequente de nossas mentes, o ar que respiramos! —  dizendo isso, Lucille guardou o arco e o violino dentro do imenso estojo de veludo negro. 
      David, impaciente e não convencido, pôs-se a andar de um lado para o outro, degustando o som produzido por seus sapatos cada vez que pisavam o chão de madeira. Retornou à janela, a fim de ver o ambiente lá fora. Não havia viva alma no pátio do conservatório. Os flocos de neve voavam pelos ares, alguns, escassos, atingiam o chão, sem surtir maiores efeitos. Só algumas horas daquela tempestade de neve poderiam pintar o gramado, as ruas da cidade e os telhados das casas de branco. 
      Os batimentos cardíacos de David aceleraram. Instintivamente, o jovem correu para a porta da sala e escancarou-a. Pelos corredores do prédio, não ouvia passos atrás dos seus. A  preocupação trespassava seu peito como uma poderosa lança.  Por todos os lugares, todas as salas, até mesmo nos banheiros, o rapaz percorreu com olhares rápidos e passos angustiados. Foi até a entrada principal do prédio, como uma última confirmação de seus piores temores. 
       Os portões estavam trancados.
       As correntes e cadeados pareciam possuir David com sua força descomunal, mantendo- o preso aos seus pensamentos e às mais delirantes estórias escritas com afinco por sua aflita imaginação. 
       Decidiu voltar correndo à sala onde tocara com Lucille durante toda a tarde. Pelo menos ela estava ali e, até onde ele sabia, não o abandonaria sem dar maiores explicações, jamais!
       — Lucille! —  chamou ele, a alguns metros da porta da sala. — Tenho péssimas notícias! Parece que todos foram embora e nos deixaram presos aqui!
       Quando finalmente David consegue alcançar a porta da sala, depara-se com uma cena inesperada: Lucille desmaiada sobre a poltrona de couro cor creme, ignorando medos e perigos ao seu redor. 
       Tentou reanimá-la por breves segundos, inutilmente. Chegou a pensar que ela estivesse morta antes de verificar sua pulsação. Nunca ficou tão feliz por estar errado. 
       De repente, ouviu um barulho muito alto, vindo do lado de fora. Deixou que a cabeça de Lucille tombasse no chão, levemente. Dirigiu-se até janela, seus olhos negros e pequeninos ansiavam por respostas. Mesmo que não fossem satisfatórias.
       E não o eram. O vento forte levara consigo um pesado cartaz, posto em frente ao prédio do conservatório. O cartaz era puxado pelas garras do vento, que o atiraram ferozmente contra o único ponto de observação que David tinha do mundo exterior. Antes que a tragédia acontecesse, ele se afastou da janela, utilizando o próprio corpo como uma espécie de escudo: primeiramente, buscando proteger Lucille e,depois, a si mesmo. 
      O ar congelante inundou o local. Àquela altura, os dois encontravam-se longe, muito longe dali. David tomara nos braços o corpo inerte de Lucille, quase não podendo suportar seu peso.  A agonia engolia a ambos, assim como a cruel nevasca devorava não só o conservatório, mas a cidade inteira. Em menos de uma hora, a paisagem local não passava de um cansativo e introspectivo quadro monocromático.
      O vento também aterrorizava. Várias casas da vizinhança já haviam sido destelhadas. O mais curioso é que David não via ninguém tentando fugir, as ruas estavam absolutamente desertas. Ou a maioria das pessoas já morrera, ou já sabiam da catástrofe muito antes deles, só que não os avisaram, deixando-os à mercê das mais cruéis demonstrações de poder da natureza perante o ser humano. 
      O jovem subia as escadas o mais depressa possível, certo de que não conseguiria salvar nem a sua vida, nem mesmo a de sua amiga. Afinal, por que Lucille desmaiara? Será que ela havia passado mal? Todas essas perguntas confundiam-se na mente agitada de David, que sentia que era tarde demais para preocupar-se com o estado da menina. 
      Apesar de estar frio, David suava devido ao extremo esforço que fizera para se refugiar no último andar do prédio. Lá, as paredes aparentavam ser tão frágeis quanto papel e as janelas debatiam-se ruidosamente. 
      Logo, ele viu-se em um turbilhão de objetos, juntamente com a amiga indefesa. O teto fora roubado de si, só faltavam os tijolos vermelhos da construção que datava do início do século XX, um a um... O gelo atingiu-os com toda a sua nefasta intensidade, afundando-os aos poucos entre os escombros do prédio, de onde nem tão cedo sairiam... E se saíssem? Ainda estariam vivos?
                 
                *                                          *                                           *
               
      Nos prados verdejantes de uma dessas cidades do interior, um refúgio dos sons perturbadores e também de si mesmos, David e Lucille viram-se em meio a café e cigarros, um contraste à saudável  vida apresentada diante deles. 
      — Então é assim que termina?
      Não importa especificar qual dos dois fez a pergunta, já que aquela era a dúvida que ambos compartilhavam. 
      — Tanto faz... Não nos diferimos tanto assim dos outros mesmo... — David resmungou. —  O que o torna tão especial? 
      — Nada. Tudo se baseia no seu estado de espírito! E o exterior só serve para dar a forma, dizer o quanto é espetacular ou deplorável o tempo de vida que se leva aqui...Ou lá.
      Fez-se uma pausa por alguns instantes, enquanto David lançava uma baforada de fumo no ar.
      — Ei! Nós esquecemos de brindar! —  observou Lucille, à voz baixa. 
      —  Isso importa tanto assim para você?
      Sem esperar resposta, Lucille lançou sua xícara de café na direção da de David. As duas chocaram-se com leveza em meio ao sol da tarde. 
      —  Saúde! — Lucille brandiu novamente sua xícara, tentando alcançar uma considerável altura com ela. 
      David riu consigo mesmo da grande ironia que é a vida. 
      


       
          
       
  

2 comentários:

  1. adorei!
    tenho dificuldade em escerver diálogos tão espontâneos.
    Bjos,

    Gustavo

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  2. Fico feliz que tenha gostado!Tudo de bom para você! :D

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