terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Big Apple

  
  Nova York. A cidade que nunca dorme. Fui visitá-la, sem preocupar-me com as mais sutis regras de etiqueta. Não tenho passaporte nem passagem. Uns dez dólares no bolso e dois amigos a tiracolo. 
  Ainda é de manhã. Pego carona num conversível vermelho, um contraste em meio a tantos táxis amarelos e carros de passeio azuis. Sorrio ao ver as lojas de grifes famosas e mais alguns pequenos e abarrotados cafés, lugares agradáveis onde um aspirante a escritor pode buscar inspiração. Conversas nos mais variados idiomas, sotaques quase impossíveis de distinguir. Ambientes distintos reunidos em um só quarteirão.Tudo o que faz com que a Big Apple seja o que é hoje.
   Observo o essencial e capto olhares de todos os humores. Sinto-me frágil e insignificante perante aos monstruosos arranha-céus. O que me alivia é saber que não sou a única.  Duas palavras que podem ou não se encaixar: frieza e solidão. 
   Peço para que o carro pare em frente a uma loja de presentes.  Desço, juntamente com meus amigos, empurro a porta de vidro. Um sininho preso no alto da soleira da porta toca, anunciando nossa entrada. Dois dos vendedores ocupam-se com alguns clientes, perguntando-lhes se querem os bichinhos de pelúcia que estão em cima do balcão embrulhados para presente, qual fita escolher para enfeitá-lo... Três jovens observam as miniaturas de porcelana nas estantes, encantados. 
   Percorro todos os produtos da loja com um rápido e atento olhar. Uma bolsinha de couro, em formato de peixe, me atrai. Preço: dez dólares e noventa e cinco centavos. Não considero certo pedir algumas moedas emprestadas a meus amigos, eles já tem suas despesas em lembrancinhas para suas famílias. Logo desisto de presentear-me. 
   Minha amiga cumprimenta uma das vendedoras, num inglês incompreensível.  A moça parece não se importar e reage positivamente a sua chegada. Meu outro amigo apresenta-se e aponta o que quer comprar. É apenas um chaveiro, com os dizeres "Eu amo Nova Iorque", em inglês, um grande coração vermelho substitui o verbo amar. É uma souvenir bem típica. Cada grande cidade do mundo tem a sua.
    Após conferirmos o troco, meus amigos e eu saímos da loja, e qual não é a nossa surpresa ao constatarmos que o conversível vermelho ainda nos espera. 
    Seguimos viagem pelas ruas coloridas da cidade. Lembro-mede passar repetidas vezes por um bar cujo estilo é inconfundível, assemelhando-se a uma taverna do final do século XVIII. Só pude reconhecê-lo através da estátua de um homenzinho, que pendia do alto da janela do segundo andar, reverenciando-se educadamente e mostrando seu chapéu coco. Infelizmente,  não consegui me dar ao luxo de parar ali mesmo na esquina e entrar no bar, ainda que sozinha. A expressão enigmática do tal homenzinho até hoje me causa arrepios, talvez pelo fato de eu não ter me aproximado dele na hora e perceber que tratava-se apenas de  seu sorriso. 
     Não sei quanto tempo lá passei. Só sei que até hoje não voltei.  



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