quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Doce manhã




Lavacourt: Sunshine and Snow,  1879-1880 National Gallery, London, de Claude Monet

      

            
       O homem acorda ao toque estridente do despertador, que anunciava o início de cada manhã.  Parte da rotina. Levanta-se ainda carregando nas costas o peso da fadiga, resultado de noites mal dormidas. Sente o sabor amargo de seu hálito, perguntando-se se havia esquecido de escovar os dentes na noite passada. Vê através dos vidros embaçados da janela entreaberta. Não, os vidros não estão sujos. É o tempo mesmo e a insistência das gigantescas nuvens com a enfadonha mania  de cobrir o azul do céu tão bonito e o brilho sonhador e ofuscante do Sol.  A contragosto, levanta-se da cama e calça os chinelos de pano. Embora a maciez sob seus pés fosse agradável, não era estimulante para o princípio de mais um dia de trabalho. Se dependesse de sua vontade, permaneceria na cama até meio-dia. E, se ficasse na cama até meio-dia, seria demitido. E, se fosse demitido, morreria de fome. 
       Cambaleante, caminha até o banheiro. Abre a torneira e permite que a água fria escorra por entre seus dedos cálidos. Com as mãos em formato de concha, abriga um pouco do líquido para lavar seu rosto. Gostaria que aquele gesto lavasse também a sua alma. 
       Dirige-se até a tábua de passar roupa, no meio da pequena lavanderia de seu aconchegante apartamento. Seu uniforme vermelho e dourado jaz sobre a mesa, limpo e passado. Pequenos amarrotados não lhes passam despercebidos. Não se atreve a deixá-los sobreviver e denunciar seu descuido para aqueles que o viam diariamente no hotel; muito menos para os hóspedes, que o avistariam uma vez em suas vidas e, depois, nunca mais. 
        Penteia os cabelos grisalhos com a mesma seriedade que um importante homem de negócios. Faz a barba: está impecável. Limita-se a uma xícara de café e dois cubos de açúcar, por favor. Encontra-se na padaria em frente ao seu local de trabalho. Observa atentamente o corre-corre daqueles pobres escravos alforriados. Sente os olhos marejados, um tímido choro para os outros e, quiçá,  para si mesmo. Uma homenagem aos seus esforços, cada vez que enfrenta o mundo que persiste em abatê-lo. 
        O resto dos hábitos é mecânico. Não possuem qualidade relevante para que possam ser relatados. Isso não iria agradar o senhor. Afinal, este conto também pertence a outro homem, igualmente vivido, amigo seu, a quem fui incumbida de contar a estória. Um lembrete de uma tarde memorável a ambos. 
        Já no saguão do hotel e devidamente arrumado, põe-se em posição de serviço. Logo, localiza  um velho que devia ter sua idade, e que acabara de entrar.  Seus olhos semicerrados vagavam pelos quadros harmoniosamente dispostos do saguão. Parecia perdido em suas próprias lembranças, um olhar indecifrável e, ao mesmo tempo, aparentando ser puramente melancólico. Vestia-se com elegância. Cheirava a bergamota, um aroma fresco e vívido, talvez uma maneira de perder alguns anos que gostaria de poder esquecer. 
        Com uma das mãos atrás das costas, fitava algo além da capacidade de qualquer um ali presente. Tinha ares de aristocrata, apesar de pisar  encurvado. Entorta a boca, como se sorrir fosse um gesto imprudente.
        Não carregava bagagens e nenhum vestígio de que pretendesse permanecer alguns dias ali.
        — O senhor necessita de algo? — perguntou o antigo funcionário, subitamente incomodado com o sujeito.
        — Olá — o outro respondeu, ainda sem olhá-lo nos olhos, enquanto uma rajada de vento sacudia os ramos das árvores do lado de fora do prédio. — Sou o senhor Álvares.
        O empregado pigarreou. Voltou-se para frente, preparado para auxiliá-lo.
        —  E então, senhor Álvares, o que deseja?
        Álvares fez uma longa pausa antes de abrir a boca. E, quando o fez, novamente escapou ao questionamento.
        — Diga-me, senhor, conhece este quadro?
        Ele apontou para uma das belíssimas pinturas penduradas na parede.
        — Sim, é de Claude Monet  — disse,  orgulhoso  ao ver-se útil com seus conhecimentos a respeito de Arte. Sua verdadeira paixão era estudar sobre o assunto. Mas, como poderia passar essas informações adiante? Quem daria crédito a um idoso, simples funcionário de um hotel? Normalmente, só falava quando indagado. Entretanto, naquele momento, sentiu que poderia ir mais além.
        —  Monet nasceu em Paris, novembro de 1840, e faleceu em Giverny, dezembro de 1926. Foi o mais célebre dentre os pintores impressionistas.
        Álvares virou-se para ele, genuinamente maravilhado.  O fulgor de seu olhar demonstrava reconhecimento.
        — Vejo que tem uma cultura bastante ampla... — e pôs-se a observar as imagens novamente.
        O silêncio imperou entre eles, por brevíssimos instantes.
        — Desculpe incomodá-lo, mas o senhor poderia me dizer o que desejas aqui? — o velho insistiu.
        — Será que eu poderia ... — Álvares se deteve, procurando encontrar palavras adequadas. Até que finalmente parece encontrá-las  —... Dar uma olhada no jardim?
        O outro franziu a testa, intrigado com a qualidade do pedido. Porém, decidiu atendê-lo.
        — Naturalmente. Acompanhe-me, por gentileza. — ele indicou o caminho, erguendo o braço direito.
         Álvares seguiu-o, sem pronunciar sequer uma palavra. Os dois desceram os degraus de pedra da entrada e percorreram um estreito caminho, que os conduziu até as frondosas árvores do jardim. As majestosas flores, amorosamente cultivadas ali, iluminavam os corações. O Sol já não fazia falta.
         Em meio a tantas rosas, amores-perfeitos, narcisos, margaridas, violetas e crisântemos, o chafariz se sobressaía, enriquecendo ainda mais a beleza do jardim.
         Álvares contemplava sua imponência, admirado. Acomodou-se num banco, próximo a um enorme carvalho.  Fez um gesto, convidando o outro homem a se sentar.
         Desassossegado, o empregado olhou para os lados, verificando se havia outro funcionário à espreita, pronto para dedurá-lo por descansar em pleno serviço. O jardim, àquela hora da manhã, encontrava-se deserto. Sentou-se ao lado de Álvares, ainda sem ter muita consciência do que estava fazendo.
         — Sabe, meu amigo, tenho algo a dizer-lhe — o nobre sentia-se muito à vontade, apesar de falar com um completo estranho.  — Meu pai era dono deste hotel...
         — Verdade? — o outro fingiu interesse. Mas, em sua mente, as dúvidas ainda reinavam: o que aquele homem queria? O que estava fazendo ali? Quem era ele?  
         — É... — Álvares suspirou — Ele amava esse lugar... Mais até do que a mim, ouso confessar.
         O empregado arregalou os olhos, sob o impacto da revelação.
         — Ele esperava que eu continuasse com os negócios da família e prosperasse. Muito. Dar origem a uma cadeia de hotéis... Como esses IBIS e Hiltons da vida...
         O outro não era idiota para não constatar que a história não terminara bem. Permitiu que Álvares prosseguisse.
         — Assim que ele morreu, não pestanejei antes de vender o hotel. Eu odiava esse lugar, que enfeitiçara meu pai, tomando-o só para si. Reconheço que meus sentimentos não sofreram grandes mudanças até hoje...
          O funcionário do hotel não fazia a mínima ideia do que dizer. Álvares tomou a palavra, de repente.
          — O senhor tem filhos?
          Ele suspirou, visivelmente angustiado.
          — Mágoa...
         Álvares franziu o cenho, espantado, enquanto procurava por  seu reflexo nos olhos do outro.
          — Os filhos são uma mágoa para o senhor? — foi a única conclusão a que o velho foi capaz de chegar.
          — Não, não...  Guardo mágoa de... Nunca... Tê-los tido... — seus olhos espelhavam o céu nublado.
          — E então? Por que não os teve? — Álvares desejava ardentemente a resposta. — Se é que eu posso saber...
          — Porque...
          — Porque... — o outro repetiu, incentivando-o a falar.
          — Porque... Eu não tenho nada de grandioso para contar a eles... — o empregado revelou, numa frase só, voz embargada.
         Álvares fora surpreendido pela ingenuidade sincera da resposta. Não guardava uma reação consigo. Optou por ficar calado, pensando.
          — Eu não sei se o dinheiro traz felicidade, mas, com certeza, a felicidade não traz dinheiro... Cedo ou tarde eles seriam levados pelas coisas mundanas e não dariam mais valor aos sentimentos que desenvolvera por eles... E eu seria só mais um no meio da multidão... Existem grandes conflitos dentro de nós mesmos... Entre ser uma pessoa feliz e ser reconhecido por todos por ter feito algo notável ... Às vezes eu penso que não é possível ter os dois... — seus olhos castanhos demonstravam tristeza.
         Álvares ainda mirava-o, atônito. Nunca, em seus setenta anos de vida, ouvira palavras tão profundas quanto as que aquele homem acabara de articular. Não eram vogais e consoantes soltas; cada letra escondia  emoções sublimes e manifestava preciosa sabedoria de vida.
          — Eu gostaria de ter podido fazer algo esplêndido  — Álvares quebrou o silêncio — Antes... — sua voz falhou — ... Antes de morrer.
          — Morrer em vida não é nada aceitável...  É o que acontece com muitas pessoas e elas mal notam isso —  ele inclinou-se para a esquerda, até ficar frente a frente com Álvares.  —   Eu quero dizer que o pior é quando se morre ... Aqui. — ele  apontou ostensivamente para o próprio coração.
          Álvares subitamente sentiu que desaprendera a falar. Não há resposta à altura de tão belos sentimentos expressos por aquele que é pobre de ouro, mas rico em virtudes. Ele soubera resumir numa só frase a consternação que levara uma vida inteira para interpretar. O que adiantara ter status social, ao ganhar tanto com a venda do hotel e, posteriormente, construindo uma carreira brilhante como advogado? Apesar disso, Álvares sentia-se incompleto. Ao contrário do empregado do hotel, ele fizera coisas grandiosas em sua vida, mas não tinha ninguém com quem compartilhá-las.
           Solitário havia sido até então. Finalmente, depois de anos de busca inconsciente, encontrara a mais bela verdade do mundo: o amor.


           Alguns dias mais tarde, o homem recebe uma carta de um dos outros funcionários do hotel, seu amigo de longa data.  No envelope cor creme, um nome destaca-se:
     Sr. Álvares
           Imediatamente, o velho começa a rasgar o envelope e quase não consegue segurar a carta nas mãos, tamanho anseio.
           Lê pausadamente, temendo que seu coração não aguentasse até o final.
        
              Caro senhor,                                                                                               
               Desculpe por nunca ter perguntado seu nome. No momento em que considerava escrever esta carta, pensei na grande dificuldade que teria em entregá-la ao senhor. Mas logo me ocorreu que, no hotel, não devem ter muitos funcionários de sua idade, se me permite dizer. Porém, se está lendo estas palavras, significa que tudo deu certo.
             Acho que nunca poderei expressar plenamente o quanto sou grato ao senhor. Obrigado por me mostrar o caminho certo para o jardim. Obrigado por dedicar a mim alguns minutos do seu tempo, minutos esses que tiveram o poder de alterar o curso de minha vida.
            Naquela manhã de junho, só tentava me libertar de uma mágoa passada. Buscava entender o que tinha de tão especial naquele hotel, por que meu pai venerava tanto aquele lugar. Então eu percebi que, talvez, minha amargura hoje fosse resultado do que eu vivera antes. Meu pai, sim, fez muitas coisas grandiosas e, entretanto, nunca se entregou ao prazer de  contar uma história para que eu pudesse dormir. E muito me impressiona a sua serenidade, apesar da vida que leva. E eu, que sempre tive tudo, e, no entanto, sentia-me tão inacabado.
           Até agora.
          O senhor quer saber por que eu recorri justamente àquele quadro de Claude Monet? Este pintor era o favorito de meu pai. Assim que vi o quadro que se revelava tão majestoso na parede, percebi que aquele fora mantido como uma homenagem a ele. Ou talvez tenha sido mera coincidência. A questão é que meu pai possuía um quadro idêntico àquele. Só que era original. Para dizer a verdade, minha família sempre foi muito rica, possibilitando que meu pai investisse na área que fosse de seu agrado, embora não rendesse lucros mais tarde. O que, felizmente, não aconteceu.
          Antes de vender o hotel, mantive-me firme na decisão de ficar com o quadro. Hoje este me traz bons frutos. Digo-lhe que acabei de leiloá-lo e, com o dinheiro que consegui, pude ter centenas de filhos. Eu só achei a peça que faltava para o quebra-cabeça por sua causa. Sim, você estava certo: morrer em vida não é aceitável. Sorte que fui capaz de encontrar mais uma razão para viver.
          Nunca estive tão feliz em minha vida. Eu, que criticava tanto meu pai, acabei tornando-me como ele. Mas ele tinha seu motivo. E, agora, eu tenho os meus.
          Peço-lhe, por favor, que venha visitar minhas crianças e a mim também. O endereço da casa de caridade está dentro do envelope, enrolado no papel de carta. Tenha cuidado ao abri-lo.
         Nada disso teria sido possível sem você. Vou ajudá-lo quando precisar, assim como o senhor me ajudou agora.
          Tenho a honra de chamá-lo de MEU AMIGO.
                                  Um abraço tão maravilhoso quanto a vida,
                                              Sr. Álvares
         
       
           

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Uma festa perdida no Cosmo





      Feel  the fire burnin' (burnin')
      Hear the love callin' (callin')
      I can see it comin' (comin')
      Can you feel it in the air ? 

                                                                                         (TV Rock - In the Air) 

       O edifício vibrava ao som abafado pelas batidas extasiantes e repetitivas de música eletrônica, enquanto era vagarosamente devorado pela madrugada quente de verão. As luzes coloridas emanavam do salão, arrastando-me sedutoramente para seu mundo fútil sustentado por aparências. 

     Levei o copo d'água até a boca. O líquido gelado escorreu pela garganta sem ocasionar maiores danos, ao contrário do que acontecera em dias anteriores, devido a uma gripe que por muito pouco não me derrubara. A sensação de ter a sede saciada era revigorante, fortalecendo-me para a grande noite que teria. 
      Pousei delicadamente o copo de vidro sobre o tampo frio de mármore na mesinha a minha frente. A marca circular produzida pelo vidro molhado na pedra denunciava o meu descuido ao não utilizar o porta-copos. Ninguém atribuía importância a esse detalhe quase insignificante numa casa cuidadosamente desorganizada. Não morava com meus pais há dois anos, podendo, assim, usufruir de inúmeras vantagens. Vivia ali sustentada apenas por uma quantia mensal, cujo valor era  mais do que razoável para uma jovem solteira. Eles pensavam que eu utilizava o dinheiro para pagar minha faculdade de Direito. Direito! Eu que não iria destruir os sonhos e grandes expectativas que eles alimentavam para mim. 
       Permaneci sentada na cadeira de balanço da varanda de minha casa, de onde se tinha uma ampla e espetacular visão daquele antigo prédio, que servia de palco para as  festas mais badaladas do bairro, predominantemente residencial. 
       Eu não era o tipo de pessoa que os outros gostavam de convidar para suas festas medíocres, especialmente se, entre esses "outros", fossem incluídos aqueles que se consideravam parte da "Elite", mas que, na realidade, tratavam-se de meros emergentes. Talvez fosse  a hora certa para uma "visitinha". 
       Abandonei o copo ainda na metade de seu conteúdo. Calcei um par de tênis surrados rapidamente, troquei de camiseta e segui rumo à entrada do edifício. Eu não tinha o hábito de invadir festas à toa.  Contudo, aquele era um caso extremamente peculiar. 
       Naquela noite agradável e estrelada, eu passara incontáveis horas lendo alguns poemas de Charles Baudelaire. Antes que eu pudesse me localizar após a leitura, fui brutalmente despertada de meus devaneios (gerados a partir dos fascinantes versos do poeta francês) pelos acordes violentos de uma guitarra. Mais uma festa se iniciara, convidados surgiam a torto e a direito e eu não percebera o portão se abrir a fim de deixá-los entrar. Considerei a possibilidade de que ao menos alguns deles teriam dormido no apartamento do anfitrião. Entretanto, a explicação encontrada pela minha mente ainda parecia ilógica. 
       Já no lado de fora de minha casa, guardei o molho de chaves no bolso esquerdo das calças jeans e prossegui meu caminho, atravessando a estreita rua que separava a realidade da ilusão. 
       As calçadas adormeciam atulhadas de lixo. Um ou outro carro era ouvido ao longe, percorrendo um quarteirão inteiro em altíssima velocidade, mais do que justificável pelo horário em que transitava. O vento era tão escasso que as folhas das árvores mal se moviam. Os postes de luzes alaranjadas iluminavam meu rosto, no momento em que eu abaixava a cabeça para empurrar o portão azul da entrada do prédio. Estava aberto. Franzi a testa, tomada de surpresa. 
       Subi os degraus da escada num só instante, em direção ao saguão principal, passando pela cabine do porteiro. O funcionário não estava lá. Sua cadeira tombara no chão e lá ficara, como se ele houvesse fugido às pressas, assustado com algo... Ou alguém. Fora isso, não notei nenhum vestígio que indicasse algum crime. Marcas de sangue, pegadas... Absolutamente nada. Pude sentir um misto de alívio e (ouso dizer) decepção ao mesmo tempo. 
       Em compensação, a TV que exibia as gravações das câmeras do circuito de segurança havia sido desligada. Provavelmente, alguém teria feito isso na intenção de cometer um delito e não ser pego com a boca na botija. 
       Meus batimentos cardíacos se aceleraram, logo que constatei as inúmeras probabilidades de aquilo ser verdade. Infiltrei-me na cabine do porteiro e pus-me à procura da tomada, antes de notar que  o aparelho de TV havia sido danificado em sua parte traseira. Minha boca se escancarou, dando origem a uma horrenda expressão de terror, enquanto mente e coração se fundiam num só sentimento: aflição. 
       Corri diretamente para o saguão principal, tendo em mente o acesso direto aos elevadores, uma vez que o salão de festas localizava-se no último andar do prédio. Felizmente, ambos encontravam-se no térreo. Optei pelo elevador social. 
       Assim que as portas se abriram, alcancei o painel de botões, dando repetidos socos na tecla que correspondia ao andar do salão de festas, tendo em mente a ingênua ideia de que, daquela forma, o elevador subiria mais rápido. Nem se tratava exatamente de inocência pura e, sim, de desespero, que não nos deixa pensar com clareza nos momentos de tensão. 
       E se houvesse um bandido lá em cima? Ou pior, uma gangue? E se todos tivessem sido amordaçados e feitos de refém? Quanto pediriam de resgate? E se acabassem atirando acidentalmente em alguém? E se atirassem em mim
       A minha linha de pensamentos assumia rumos cada vez mais aterradores, embora eu tentasse parar de relacionar os possíveis acontecimentos. Eu mal conseguia observar meu reflexo no espelho às minhas costas, tamanha agonia. 
       Fiquei dentro do elevador por um tempo que pareceu ser eterno. 
       Quando as portas se abriram...
       ... Passei a pertencer a outro mundo. 
       — Pensávamos que você não viesse mais! — um homem sorridente veio até mim, como se fosse o recepcionista da festa. Abriu os braços,em sinal de acolhimento, hospitalidade... Quase atirei-me neles,  de tão fragilizada psicologicamente. Seu chapeuzinho em formato  de cone de papel amarelo, típico de festas de aniversário, no alto de sua cabeça, me fez sorrir. 
       Vi que havia um grupo de pessoas atrás dele, todas sorrindo também. Uma delas carregava um enorme e redondo bolo de chocolate. Repentinamente, o grupo começou a bater palmas e cantar "Parabéns a você". Todos ou outros ruídos externos foram eliminados. Só se ouviam vozes misturadas, entre adultas e infantis, em uníssono, na alegria da popular canção. 
       No instante em que dei por mim, deparei-me com o grupo me rodeando, rostos genuinamente felizes. As luzes coloridas de antes haviam sido apagadas. Tudo ao meu redor era branco, bem iluminado e maravilhosamente brilhante. Não fui capaz de perceber nenhum só indício de que uma festa adolescente ocorrera anteriormente ali. Aparentava ser a essência de uma confraternização em família. Até mesmo a noite se tornara mais límpida. 
       Todavia, tinha qualquer coisa errada ali. Terrivelmente errada. 
       Todas as pessoas possuíam uma marca no alto da testa. Uma marca escura e circular, que só notei a partir do instante em que um líquido vermelho de aparência grossa saía dali, num fio fino.
       Sangue. 
       Aquelas eram marcas de bala. 
       Apesar das horrendas feridas na cabeça, eles não aparentavam dor. Aliás, eles deveriam estar mortos. E faziam justamente o contrário: riam e cantavam mais vivos do que nunca. Do que eles tinham sido em vida...
       Já não podia mais sentir meu coração. O órgão queria sair de meu corpo, desesperadamente, enquanto seus batimentos corriam como loucos, parecendo querer levá-lo rumo à garganta. 
       Juntei o resto das forças que tinha e iniciei uma corrida alucinante, cujo prêmio maior era minha própria vida. Ninguém zelaria por ela mais do que eu mesma. 
       Ainda mais aterrorizada, percebi que os anfitriões da festa continuavam com a cantoria, como se não tivessem visto eu fugir. 
       Quando eu estava a um passo de escapar do macabro salão de festas, franzi o cenho, incrédula com a cena que se apresentava diante de meus olhos. 
       Toda a estrutura do prédio havia se transformado em fracas vigas de madeira. Os elevadores haviam simplesmente desaparecido, dando lugar a um escuro abismo. As escadas haviam se decomposto, o pó de sua madeira era disseminado pelos ventos ao redor daquela que já fora uma construção admirável. Naquele instante, caía aos pedaços. 
       Agarrei-me a uma das vigas, na tímida tentativa de manter-me viva. Uma queda do décimo andar seria fatal. 
       — Não vai querer que eu tire uma foto sua? Hoje é seu aniversário...
       Virei-me na direção da voz, a fim de saber quem era o seu emissor. 
       Não fui capaz de realizar qualquer movimento, mas ele foi responsável por paralisar todos os meus. De forma fria e impiedosa. 
       O homem ergueu uma arma que se assemelhava a uma Colt 45 Magnum. 
       E atirou. 


                                                                 *    *    *


       — Você consegui fazer a pesquisa? Sabe, achar alguma coisa referente aquele prédio... — perguntou Erika, a delegada. 
       — Tudo o que eu sei baseia-se em relatos de vizinhos. Ao que parece, este homem descobriu que a mulher o traía com o síndico do prédio.  Muito enciumado, ele esperou a festa de 16 anos de sua filha mais velha acontecer, no salão de festas do edifício, entrou lá com uma arma e matou a todos os convidados, inclusive a esposa e a filha. Por enquanto está foragido — respondeu o agente. 
       — Que história horrorosa! O pior é que essa não será a primeira, nem a última vez. — a delegada comentou, balançando a cabeça, incrédula.
       — Qualquer coisa de estranha havia naquele prédio... Nenhum dos vizinhos diz ter visto os convidados chegando para a festa... E ainda tem uma jovem, que surgiu lá, aparentemente sem ser convidada...  o agente começou a equilibrar os aspectos  do caso. 
       — E qual o problema disso? — indagou a delegada, sem entender aonde o outro queria chegar.
       — Essa jovem teria morrido há dois anos,no desabamento de outra construção, neste mesmo bairro. 
       O agente e a delegada se entreolharam, arrepiados com o caso que tinham em mãos.  






       
       
        

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Música do Tempo

    
     — Tem certeza de que é isso que você deseja tocar no recital? — perguntou David a Lucille, enquanto folheava distraidamente o caderno de partituras da jovem violinista. Lucille percebera certo tom de desdém na voz do rapaz ao empregar a palavra isso, como se o nome da canção fosse abjeto em demasia para não ser pronunciado por pessoas que se consideravam suficientemente cultas.
     Sentindo-se ofendida, num gesto seco, tomou o caderno das mãos de David, fechou-o e guardou-o dentro de sua mochila. 
     Isso é música de verdade. Muito melhor do que esses sons horríveis que você ouve no rádio a tão alto volume!
     David revirou os olhos, encostando um dos pés na parede atrás de si. 
     — Não foi isso que eu quis dizer. É que não é muito conhecida...
     Lucille deu de ombros. Nunca deixava-se abater pelo que os outros diziam, nem mesmo quando as duras palavras eram proferidas por David. Ela interpretaria, no próximo recital a ser realizado, uma peça para piano e violino, composta pelo francês Claude Debussy. A maioria dos estudantes de música do conservatório restringiam-se a tocar as famosas sonatas e os inesquecíveis noturnos de compositores como Beethoven e Chopin; tornando-se alvos constantes de críticas ao errar uma nota. Mesmo os que menos entendiam de música clássica apreciavam ouvir os movimentos da 9ª Sinfonia, tão difundidos pela Televisão e Cinema, interpretados por corpos e mentes adolescentes. 
      Ao escolher músicas praticamente desconhecidas do grande público, Lucille tinha como objetivo ampliar os conhecimentos a respeito da Primeira Arte daqueles que frequentavam os recitais, e, até mesmo, incentivá-los a  tocar algum instrumento clássico.  A verdade é que a menina gostava de inovar. 
      Os dois demoraram-se mais alguns minutos na sala de música, onde os alunos poderiam treinar seus talentos para as apresentações. David concentrava-se ao piano, tentando acompanhar Lucille. Esta, tentava buscar a essência da composição. Por trás das melancólicas notas de Beau Soir , arrancava lágrimas doídas e secas do violino.  O arco subia e descia pelas cordas, um trabalho que fluía harmoniosamente com o tempo. Ao ressoar da última nota, suspiros iriam pairar pelo imenso auditório. 
      — Acho que podemos parar por aqui. —  concluiu David, fechando o piano. 
      —  E vamos sair logo agora? —  Lucille ainda segurava o violino, apontando para a janela da sala com o arco. —  Parece que uma nevasca se aproxima.
      David virou-se para ver e não pôde deixar de abrir um pouquinho a janela. 
      O vento frio penetrou na sala de música, elevou as cortinas até o teto no balanço violento e invisível, como se assustadores fantasmas tomassem forma no tecido. 
      — É melhor que fiquemos aqui — Lucille limpava os resquícios de resina do violino com uma flanela, acomodando-se numa das inúmeras poltronas. 
      —  Mas já estamos aqui o dia inteiro! — David guinchou, esforçando-se para empurrar o vidro da janela. Quando conseguiu, soltou o ar de alívio. 
      — Excelente! Talvez o doce aroma dos livros de partituras e dos instrumentos musicais nos inspire para o recital de amanhã. O que é o talento para a música sem a sua constante aplicação? Não se toca música quinze minutos por dia apenas para depois esquecê-la; ela é o pensamento frequente de nossas mentes, o ar que respiramos! —  dizendo isso, Lucille guardou o arco e o violino dentro do imenso estojo de veludo negro. 
      David, impaciente e não convencido, pôs-se a andar de um lado para o outro, degustando o som produzido por seus sapatos cada vez que pisavam o chão de madeira. Retornou à janela, a fim de ver o ambiente lá fora. Não havia viva alma no pátio do conservatório. Os flocos de neve voavam pelos ares, alguns, escassos, atingiam o chão, sem surtir maiores efeitos. Só algumas horas daquela tempestade de neve poderiam pintar o gramado, as ruas da cidade e os telhados das casas de branco. 
      Os batimentos cardíacos de David aceleraram. Instintivamente, o jovem correu para a porta da sala e escancarou-a. Pelos corredores do prédio, não ouvia passos atrás dos seus. A  preocupação trespassava seu peito como uma poderosa lança.  Por todos os lugares, todas as salas, até mesmo nos banheiros, o rapaz percorreu com olhares rápidos e passos angustiados. Foi até a entrada principal do prédio, como uma última confirmação de seus piores temores. 
       Os portões estavam trancados.
       As correntes e cadeados pareciam possuir David com sua força descomunal, mantendo- o preso aos seus pensamentos e às mais delirantes estórias escritas com afinco por sua aflita imaginação. 
       Decidiu voltar correndo à sala onde tocara com Lucille durante toda a tarde. Pelo menos ela estava ali e, até onde ele sabia, não o abandonaria sem dar maiores explicações, jamais!
       — Lucille! —  chamou ele, a alguns metros da porta da sala. — Tenho péssimas notícias! Parece que todos foram embora e nos deixaram presos aqui!
       Quando finalmente David consegue alcançar a porta da sala, depara-se com uma cena inesperada: Lucille desmaiada sobre a poltrona de couro cor creme, ignorando medos e perigos ao seu redor. 
       Tentou reanimá-la por breves segundos, inutilmente. Chegou a pensar que ela estivesse morta antes de verificar sua pulsação. Nunca ficou tão feliz por estar errado. 
       De repente, ouviu um barulho muito alto, vindo do lado de fora. Deixou que a cabeça de Lucille tombasse no chão, levemente. Dirigiu-se até janela, seus olhos negros e pequeninos ansiavam por respostas. Mesmo que não fossem satisfatórias.
       E não o eram. O vento forte levara consigo um pesado cartaz, posto em frente ao prédio do conservatório. O cartaz era puxado pelas garras do vento, que o atiraram ferozmente contra o único ponto de observação que David tinha do mundo exterior. Antes que a tragédia acontecesse, ele se afastou da janela, utilizando o próprio corpo como uma espécie de escudo: primeiramente, buscando proteger Lucille e,depois, a si mesmo. 
      O ar congelante inundou o local. Àquela altura, os dois encontravam-se longe, muito longe dali. David tomara nos braços o corpo inerte de Lucille, quase não podendo suportar seu peso.  A agonia engolia a ambos, assim como a cruel nevasca devorava não só o conservatório, mas a cidade inteira. Em menos de uma hora, a paisagem local não passava de um cansativo e introspectivo quadro monocromático.
      O vento também aterrorizava. Várias casas da vizinhança já haviam sido destelhadas. O mais curioso é que David não via ninguém tentando fugir, as ruas estavam absolutamente desertas. Ou a maioria das pessoas já morrera, ou já sabiam da catástrofe muito antes deles, só que não os avisaram, deixando-os à mercê das mais cruéis demonstrações de poder da natureza perante o ser humano. 
      O jovem subia as escadas o mais depressa possível, certo de que não conseguiria salvar nem a sua vida, nem mesmo a de sua amiga. Afinal, por que Lucille desmaiara? Será que ela havia passado mal? Todas essas perguntas confundiam-se na mente agitada de David, que sentia que era tarde demais para preocupar-se com o estado da menina. 
      Apesar de estar frio, David suava devido ao extremo esforço que fizera para se refugiar no último andar do prédio. Lá, as paredes aparentavam ser tão frágeis quanto papel e as janelas debatiam-se ruidosamente. 
      Logo, ele viu-se em um turbilhão de objetos, juntamente com a amiga indefesa. O teto fora roubado de si, só faltavam os tijolos vermelhos da construção que datava do início do século XX, um a um... O gelo atingiu-os com toda a sua nefasta intensidade, afundando-os aos poucos entre os escombros do prédio, de onde nem tão cedo sairiam... E se saíssem? Ainda estariam vivos?
                 
                *                                          *                                           *
               
      Nos prados verdejantes de uma dessas cidades do interior, um refúgio dos sons perturbadores e também de si mesmos, David e Lucille viram-se em meio a café e cigarros, um contraste à saudável  vida apresentada diante deles. 
      — Então é assim que termina?
      Não importa especificar qual dos dois fez a pergunta, já que aquela era a dúvida que ambos compartilhavam. 
      — Tanto faz... Não nos diferimos tanto assim dos outros mesmo... — David resmungou. —  O que o torna tão especial? 
      — Nada. Tudo se baseia no seu estado de espírito! E o exterior só serve para dar a forma, dizer o quanto é espetacular ou deplorável o tempo de vida que se leva aqui...Ou lá.
      Fez-se uma pausa por alguns instantes, enquanto David lançava uma baforada de fumo no ar.
      — Ei! Nós esquecemos de brindar! —  observou Lucille, à voz baixa. 
      —  Isso importa tanto assim para você?
      Sem esperar resposta, Lucille lançou sua xícara de café na direção da de David. As duas chocaram-se com leveza em meio ao sol da tarde. 
      —  Saúde! — Lucille brandiu novamente sua xícara, tentando alcançar uma considerável altura com ela. 
      David riu consigo mesmo da grande ironia que é a vida.